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Cabana4

Que a fonte da vida é Deus,

há infinitas maneiras de entender.

Adélia Prado

 

Querida Adélia,

Há muito queria ter escrito a você essas palavras. Mas nem sempre as novidades são interessantes, ou talvez, eu não me sentia interessante há muito tempo. Acontece que eu fui ao cinema. Fui assistir um livro que se transformou em filme. E todo livro que se transforma em filme vira livro para preguiçosos. Livro que ganha mais grana e mais status. Desculpe minha ácida sinceridade.

Eu não li o tal livro, aliás, comecei a lê-lo, mais achei muito devagar e parei nas primeiras páginas. A chancela de best-seller na capa do livro me causou má impressão, eu sou assim, uma pessoa não muito boa. Mas eu fiquei intrigado, pois ouvi que o filme, tal como o livro, falava sobre Deus. Eu gosto de coisas que falam sobre Deus. Aliás, quando você fala sobre Deus eu entendo melhor do que quando os teólogos divagam sobre a Divindade, o Sublime. Teólogo, que é teólogo, não fala Deus, fala Sublime, Divindade. E raramente chamam a divindade de Pai. Quando você, Adélia, fala de Deus, eu ouço coisas diferentes. Eu chamo essas coisas diferentes de revelação.

Fui sozinho ao cinema, não sozinho de gente, mas largado. Eu fui nu ao cinema, não desprovido de roupa, mas aberto. Eu fui como sou, não como era, uma impressão para impressionar alguém, mas limpo de alma. Eu fui, Adélia.

A mesma sensação eu obtive ao ler as páginas do livro, é uma questão de ritmo, cada um dança melhor num ritmo. O ritmo não me agradou muito. Mas em compensação, querida, a maneira como Deus é apresentado no enredo da história, sobrepuja toda falta de cadência exigida por mim – ser impaciente, apressado, inserido numa sociedade cujo tempo se liquefaz.

Confesso aos seus olhos Adélia, que já fui um repetidor de um Deus criado por homens. Era um Deus triste. Cinza. Bolorento. Que tinha respostas pra tudo. E quando não tinha, era porque não queria responder. Onde já se viu Adélia, achar que Deus tem respostas pra tudo!? Deus não se envolve em responder questionários. Ele vive entre nós. Era sobre isso que eu dizia Adélia, que havia ido ao cinema sem… sozinho do repetidor sem reflexão, despido da pretensa de responder em nome de Deus todas as coisas, limpo das cadeias e algemas que me exigiam figurar num teatro sem alegria, cor, ou plateia. Eu não sabia e nem sentia tanto incômodo, até encontrar a saída “cegante” da caverna.

Querida, sei que posso falar isso pra você! Quando eu olho Deus, não necessariamente eu olho pra cima! O Deus que me atraiu, assim como o menino Jesus de Alberto Caeiro, mora comigo, na terra, no mundo e na lama. Ele pra mim é negro! Não se assombre, por favor! Mas pode ser branco, amarelo, índio… para outros! Ele não se desencantará pra mim, quando for o Deus de outro! Desde que continue sendo livre, sopro, ar não condicionado aos ditames humanos. O meu Jesus é um jardineiro, um viajante e um chef de cozinha! Não foi assim que ele foi visto pós-ressurreição? Eu continuo com os olhos da pós-ressurreição. E o Espirito Santo – claro que não tenho olhos pra vê-lo! Mas você consegue ver o perfume do alho fritando no óleo? Consegue saber onde está a ansiedade antes de se apresentar em seu coração? Consegue ver o drama do filho por detrás de um sorriso tenso? Não, Adélia! É tudo invisível! Mas sabemos que estão lá.

Mas o que me causa mais admiração Adélia, é que Ele – como você chama Deus? – sabe muito bem apresentar-se a nós! Por isso as experiências ao longo do tempo são instrumentos poderosos para a chegada de Deus à nossa história. Todas as marcas que ficaram na memória, são tapete vermelho para o ilustre convidado. Quer um conselho Adélia? Não recolha nem uma de suas experiências! Nunca se sabe quando Ele … o resto você sabe!

Por uma cabana…

Por um luto…

Por um poema…

Por um divórcio…

Por um pôr-do-sol…

Por uma dívida…

Por uma taça de vinho…

Por uma enfermidade…

Por uma frustração…

Por um perfume…

Por uma queda…

Por um sorriso…

Por uma ofensa…

Por uma música…

Por qualquer coisa que Ele quiser que fique marcado na memória, e assim, desse modo, livremente, Ele se faz tão aparentemente nosso.

Qual a sua cabana Adélia?

Eu sei, há um Deus tão perto, que só eu sou capaz de reconhecê-lo!

O Deus das minhas marcas!

Afinal, cada um possui a sua cabana!

#acabana #adeliaprado #aceia #christianoalves

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E ela acabou de morrer, aos poucos, dentre a relva úmida

Sem nunca ter sabido que se chamava miosótis.

Mario Quintana

Como certa miosótis* que fenece depois de ter sido pisada sem saber ao certo quem era, assim, pode ser a mais triste realidade do ser humano hipermoderno. E pisar a si mesmo, por causa da fragilização da identidade, é resultado de quem não se enxerga, não se percebe, não se valoriza, não se encaixa, … no processo que se chama existência.

A diminuta flor de azul vibrante pisada pelo poeta, tinge suas memória e inspiração, e o faz retirá-la de um anonimato campestre para suas linhas de sinceras dedicações. Ela, a pequena flor, nunca soubera disso.

O livro formatado na série “13 reasons why” da Netflix trata das miosótis que permeiam o caminho da humanidade, diversas em suas idades, cores, línguas, culturas, estatura, peso, cabelo, sexualidade, … que sofrem do pisar da existência com suas mais distintas exigências. Portanto, cada personagem, uma miosótis que não sabe ao menos quem é, e qual seu papel na existência! Seria muito, cobrar tudo isso, ou seja, uma clara consciência para o ser humano em desenvolvimento? A cada passo no desenvolvimento, certa dosagem de consciência – do que se é, e do que se não é, do que se é responsável e até que ponto se é responsável – sempre será favorável para entender a si em todo processo de sofrimento, inclusive o do viver.

As personagens principais da série possuem carência, como todo ser humano hipermoderno, de se identificarem como inspiradores de algo, alguém ou de si mesmos! Há uma total necessidade de aprovação dos outros, das massas, dos likes, da notoriedade, da popularidade custe o que custar! O ser hipermoderno é o ser da vitrine, e como se sabe, não se pode colocar toda coleção num só momento, numa só vitrine. Sempre algumas peças ficarão fora dos holofotes da coleção! Os desafios se fazem quando a importância está na cultura da vitrine! As exigências se formam quando se estar na vitrine é a realização de todo ser hipermoderno! E ainda que o ser humano faça parte da coleção, ele não será feliz, satisfeito, resolvido, consciente, se não estiver na vitrine!

As miosótis não perdem a beleza, quando desabrocham em lugares inóspitos, cujo nenhum olhar as contempla! Nem ao menos quando estão sob pés distraídos, causadores de seu fim! As miosótis mesmo que não saibam, são as miosótis! Tarefa impossível fazê-las enxergar isso! Mas quanto ao ser humano cegado pela necessidade de ser visto, mesmo que ele seja míope para a sua própria essência?

Ações específicas são necessárias para os inúmeros de miosótis que pisam contra si mesmas. Miosótis que pisam em si mesmas, deixam a vida, sem ao menos saberem o que são!

Através da série mencionada, vemos a necessidade do encorajamento nas relações sadias, cujos limites sustentados pelo sim e não, são claros em todo tempo. Limites sobre a imagem do outro, suas opiniões e posicionamentos, seus credos e pensamentos, sua liberdade de ir r vir, estar ou não, vestir ou não aderir, … A força não pode ser a bússola de uma sociedade livre!

Há também a necessidade de se investir nos diálogos informais frequentes. Que os diálogos não se tornem apenas para momentos de resolução de problemas. É preciso que o diálogo seja natural em todas as temáticas. Comunicar a dor, a frustração, o bullying sofrido, o sexo, a experiência com a droga, o estupro, … deveria ser como pedir o prato de salada à mesa, com total segurança de que você será respondido com sucesso!

O cuidado pelos mais experientes é de fundamental importância. Largar o assento ocupado pelos que julgam e engrossar as fileiras dos ajudadores é o maior exemplo que se pode oferecer para os mais novos que não ouvem os que nunca erram, os que sabem de todas as coisas, os que nunca tiveram problemas… descer e ajudar a empurrar, não há expressão mais clara e direta!

Proporcionar uma coletividade consciente e interventora, que não permite que regras de respeito mútuo sejam quebradas é evitar danos na alma de muita gente. Coletividade que seja responsável por quebrar maquinações danosas, covardes, ou seja, gente que não se omite quando há injustiça com pelo menos um! Um ser humano injustiçado, ferido, alvo dos outros, basta para que todo o restante seja parado por qualquer um do grupo.

Outra ação que as miosótis da hipermodernidade precisam, está nas mãos dos seus cuidadores. Pais que não firam a privacidade, pois nunca se ausentaram, então sempre estiveram por ali. Não são considerados estranhos! Que não se sentem frustrados por privar um pouco do que são para formar os filhos que serão. Cuja agenda da felicidade, contempla seus filhos, as miosótis mais frágeis, sensíveis e incompreensíveis que já dormiram debaixo daquele teto.

Uma instituição de ensino que não tenha medo do ser humano, essa miosótis hipermoderna, que por vezes se fere, e outras, fere os seus pares, e que de tão perdido, não enxerga o que faz, ou que fazendo de olhos abertos, não possui consciência em fazê-lo. Uma instituição que não faz seu trabalho! Uma instituição de ensino que resolveu educar!

Há também a necessidade da cultura de uma nova chance. Não importa se as miosótis se puseram por debaixo dos pés distraídos ou não, importa sempre comunicar a existência das inumeráveis chances para um recomeço. Toda miosótis hipermoderna possui a chance de recomeçar!

Hannah Baker?!

Apenas mais uma retratação de tantas miosótis sob nossos pés!

*sempre no feminino em referência à flor do

#13reasonswhy #netflix #netflixbrasil

Ps. Eu sei que há mais coisas a serem ditas!

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Todos lhes dão, com uma disfarçada ternura, o nome, tão apropriado, de vira-latas. Mas e os vira-luas? Ah! Ninguém se lembra desses outros vagabundos noturnos, que vivem farejando a lua, fuçando a lua, insaciavelmente, para aplacar uma outra fome, uma outra miséria, que não é a do corpo…

Mario Quintana

 

 Foi limpando a pequena jardineira do apartamento que me lembrei dos vira-latas que tive ao longo da minha infância. Cachorro com pedigree era frescura! Comprar filhotes, nem se imaginava! A molecada ganhava vira-latas, e isso já era uma sensação! Entrar no mundo dos adultos, tendo a responsabilidade de educar e criar um filhote! Sim, se conhecia raças e animais de pedigree, mas se estimava os bichos sem linhagem, misturados à própria sorte. Eles pareciam com a gente! Não tinham sangue azul! Eram puro esforço de vida, de sobrevivência! Nós os reconhecíamos como parte nossa, e eles sabiam farejar que nossa raça era parecida! Ou a ausência dela! Nem eles, nem nós, tínhamos frescuras!

Ao limpar a jardineira, me deparei com as plantas de pedigree, as compradas nas floriculturas, e também como os matos, que crescem à volta delas. Um bom jardineiro preserva as plantas de pedigree e rechaça todo o mato. Ele opta por nutrir as plantas de sangue azul, que estão catalogadas, as que vieram de países distantes, as de cores modificadas, as de valor mais exorbitantes, … e tudo o que não atende as exigências dele, cuidadosamente ele retira, corta, capina e não permite seu crescimento.

Eu nunca me tornaria um bom jardineiro! Eu sempre enxergo no mato e principalmente nos que florescem, beleza! Nunca me importei com as plantas de pedigree, eu sempre absorvi de qualquer planta – erva daninha, mato,… – a beleza de suas cores, a maneira como surgiam sem cerimônia e contrastavam com as de pedigree. Quando largadas nos acostamentos das estradas, a maneira como assumem o espaço e embelezam a viajem mais triste; toda a saudade colorida delas que se pode observar pela janela dos ônibus, carros, trens,… me causa admiração, amor afeto por cada flor que salta dessas plantas sem pedigree.

Quando me deparei com os matos crescidos junto às plantas de pedigree na minha jardineira, resolvi preservá-los e conceder a chance de convencer aos visitantes de que eles merecem permanecer entre as de sangue azul. Há beleza nos matos que crescem nas jardineiras da existência. Há alegria nos vira-latas que abanam o rabo no trajeto que fazemos entre o nascer e o morrer. A vida é cheia de significados entre os mais desmerecidos desse mundo.

Na verdade eu havia resolvido, retirar todas as plantas de sangue azul e fazer uma jardineira de matos e suas delicadas flores. Mas, para que serve o mato, senão para causar confusão nas plantas que acham que apenas elas florescem!? Para que serve o vira-lata, senão para fustigar os de pedigree com sua liberdade de ser o que desejar!? Bom mesmo é quando há o encontro dos dois: a planta de sangue azul, com o mato florescido. A dama e o vagabundo botânico! O Romeu e Julieta da flora!

Eu entendo quando alguém se sente um vira-lata, ou um mato, uma erva prestes a ser arrancada da jardineira! Entendo o que é se sentir perdido num mundo em que os de puro sangue possuem proeminência. O que eu não entendo é mato que se recusa a florescer porque não faz parte do Jardim Botânico. O que eu não entendo é o vira-lata que por não ter pedigree, resolve não pular e nem abanar o rabo por aí!

O jardineiro precisa fazer seu trabalho.

Ele aprendeu a separar o puro, do “impuro”; o “joio” do trigo; o de sangue azul do bastardo; o de linhagem do inominado…

E se ele aprendesse a separar o belo do belo? E se você começar a aprender isso também? Que a beleza pode ser encontrada no vira-lata, no mato, no que se apresenta não em seu espelho apenas, mas em sua existência?

E se você resolvesse florescer? Abanar o rabo? Pular de alegria?

Tente. E você se surpreenderá! Permanecerá na jardineira sem medo! Sendo beleza, independente de sua linhagem!

Tente mais uma vez!

encarcerados

Nós somos responsáveis pelo outro, estando atento a isto ou não, desejando ou não, torcendo positivamente ou indo contra, pela simples razão de que, em nosso mundo globalizado, tudo o que fazemos (ou deixamos de fazer) tem impacto na vida de todo mundo e tudo o que as pessoas fazem (ou se privam de fazer) acaba afetando nossas vidas.

Zygmunt Bauman  1925-2017

 

E com tais incríveis palavras eu celebro Bauman e dou voz às grades manchadas de sangue dos presídios brasileiros.

Faz um bom tempo que anuncio uma tragédia que ocorre diuturnamente nos presídios, que não precisava ser percebida, pelos mais terríveis acontecimentos nos últimos dias. E faz muito mais tempo que o ser humano, deu as costas para um barril de pólvora que explode sempre que um encarcerado ganha as ruas sem ter sido recuperado como convém.

Todos os dias, um número significativo de presos ganha as ruas. E todo preso que chega, sabe que um dia sairá. Mas a sociedade sabe disso? Sabe que por mais tempo que ele passe trancafiado, chegará o momento em que ele retornará? O que fazer para que o encontro entre a sociedade (você, familiares, amigos, eu, …) e o recém-libertado não gere num impactante número de 80% de reincidência à carceragem? Creio que o preso deveria ter medo de ser preso. As penitenciárias deveriam gerar terror aos encarcerados. Elas deveriam promover tamanho trauma no preso, que quando solto, ele precisasse ficar “ligado” em todas as suas ações e pensamentos para nunca mais voltar para aquele lugar! O preso recém-libertado deveria sentir seu corpo tremer ao pensar em retornar para trás das grades.

Mas quais os métodos seriam usados? Nenhum dos que até hoje foram usados! Eles precisam sofrer diariamente! E só há uma maneira para que eles sintam dor! Tratando-os como seres humanos. Quem sempre foi destratado, já está vacinado para tais práticas de anulação do ser. Quem sempre foi desmerecido, entende a linguagem da anulação do ser. Quem sempre foi desacreditado, percebe as práticas ou omissões que traduzem o descrédito do ser. Quem sempre foi alvo de violência e a causou também, não se espanta com chacinas dentro de presídios, ou ameaças de carcereiros, que alimentam o ser violento. Quem sempre ouviu palavras que forjavam o pior de seu caráter, não se incomoda com as mesmas palavras ditas por outras pessoas, e que apenas comprovam o que ele imagina ser.

Hoje, as palavras de ódio e violência surgem de pessoas que não oportunizaram e sem perceberem, as mesmas sofrem as consequências desse amontoamento de gente entre grades. Essa fábrica do mesmo ódio! Esse polo de maquinações do mau! Essa escola de desumanização e banalidade da vida –  de quem está dentro e fora!

Por isso eles deveriam sofrer!

As oportunidades nos presídios deveriam ser o primeiro soco na boca do estômago recebido pelo preso assim que ele chegasse ao Sistema Carcerário. Uma sociedade que oportuniza mudanças, pode, se quiser, (eu não quero) reclamar a vida do preso que se recusou aproveitá-las. Sejam oportunidades profissionais, acadêmicas, religiosas, … todo preso deveria sentir o peso de negar a mudança concedida pelo Sistema. O Juiz se sentiria mais confortável em penalizar um reincidente que jogou fora toda oportunidade de mudanças. O júri, com mais autoridade em condenar. E todo sistema, mais forte e menos culpado em cumprir e fazer cumprir as leis.

O trabalho deveria ser a solitária mais cruel que ele poderia provar. Os sistemas não podem ser auto sustentáveis, ou corresponder por partes de seu custeio? A quem interessa repasse de verbas advindas diretamente dos governos? Redução progressiva da pena? Ninguém se aposenta antes por sua produtividade, mas recebe pelo seu trabalho. As famílias poderiam ser sustentadas através disso? Mas a quem interessa repasse de amparos financeiros?  O trabalho sim, seria a forma mais tangível dele entender as consequências de seus atos. Um fundo para amparo de vítimas(vítimas da violência e ou “vítimas familiares”) – através do trabalho do interno? Eles deveriam tremer diante de um trabalho digno!

Os programas de humanização do preso deveriam ser a cadeira elétrica mais potente das instituições. Não há dor maior, a que faz o ser humano voltar a se enxergar como tal. Para o ser humano se transformar em objeto, é um percurso mais fácil. Mas para o objeto se transformar em ser humano, é algo que gera dores como de um parto. Programas de humanização nos presídios deveriam servir como partos de pessoas, de gente, de humanos, para que pudéssemos então transferir para eles a dor dos que um dia sofreram em suas mãos. E assim, fazê-los provar dos remédios de gente: perdão, arrependimento, transformação, paz, alegria, auto-estima, … Antes da humanização nenhum desses remédios surtem efeito. Objeto não ingere antídotos, ele apenas serve de recipiente. Por mais que as instituições (Ongs, as de defesa, religiosas, sócias…) insistam em ministrar os remédios, de nada adiantará se não houver a humanização do encarcerado.

Os olhos de profissionais dignos e incorruptíveis deveriam servir de pena de morte para os encarcerados. Pessoas bem sustentadas e amparadas pelo governo. Homens e mulheres que por servirem a sociedade no tratamento de seus “algozes”, deveriam ser valorizados e a eles, oportunizado vidas dignas, de tal maneira que o estado também teria autoridade para punir exemplarmente quem não aproveitasse tal oportunidade. Nenhum olhar fere tanto, que o de pessoas íntegras, que não cedem às negociatas e não se vendem aos sistemas. Esses olhares também veriam gente ao invés de coisas, pessoas ao invés de objetos, seres humanos ao invés de deposito de ódio e violência. Eles veriam pessoas que pelas oportunidades voltariam em paz para a sociedade.

Os encarcerados precisam ser feridos através de um tratamento tão severo quanto é o evangelho. O evangelho (o verdadeiro evangelho) causa tanto constrangimento no ser, que envergonhado por aquilo que o ser pensa ser, espantando pelo caminho antes dotado de crédito e desanimado de planos fadados à falência, só lhe resta mudar de rota e adequar-se ao novo. Nenhum ser humano escapa da dor causada pelo verdadeiro evangelho!

Paulo, o da Bíblia, disse que agir inesperadamente contra o seu inimigo, tratando o mal com o bem, faz com que os miolos do inimigo fritem de tanto ele pensar na vingança que não veio, e no caminho libertário de paz que o opositor abre através do bem. Os presídios deveriam fritar miolos! Já vimos isso ao longo da história. Um começou e o outro foi influenciado por esse. Refiro-me à Ghandi e Luther King Jr. A estratégia da não violência já venceu aqui nessa terra. Os adversários se dobraram mediante a culpa que sentiram pelo que estavam fazendo. Mas foi preciso fazer com que enxergassem que havia seres humanos de ambos os lados.

Quais oportunidades, das que ferem o íntimo, foram concedidas por nós e nossos governantes aos encarcerados, que nos dê autoridade para reclamar a vida de cada um deles?

O mundo está tão violento, que foi necessário comparar as boas ações com a violência para que alguém me ouça, pelo menos dessa vez. E que as ações sejam bem rápidas, pois a cada dia, um número significativo de detentos ganha as ruas sem ter sido recuperado como convém.

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Eu levarei comigo as madrugadas,

 Pôr de sóis, algum luar, asas em bando,

(…)

Mario Quintana

 

Sempre se carrega para novos tempos, velhos pensamentos, imagens, experiências, momentos, sabores, perfumes, sorrisos, … a memória se encarrega de transportar pelos tempos toda essa carga na vida do ser humano. Adélia Prado, já insiste: “O que a memória ama, fica eterno…” e ao eterno não existem barreiras de tempo. Portanto, basta a memória amar, para que o objeto do amor memorial, se torne algo a ser transportado pelo tempo. E o pior é que a memória não ama apenas coisas boas. A memória também se apega às marcas dolorosas e profundas. Também para novos tempos se carrega velhos sentimentos, rancor, tristeza, mágoa, raiva, luto, culpa, … a memória arrasta traumas de maneira atemporal.

Na mudança de tempos, o ser humano é levado a pensar de maneira latente, no que ele trouxe até o momento e o que ele irá levar daqui adiante. O peso é fator relevante para que o ser humano pense em ser mais leve a sua vida. Então, disposto a viver melhor os tempos novos que se abrem, o ser humano pesa, quantifica, mede, avalia, exerce o poder do discernimento para seguir viajem. Contra o ser humano está sua memória, que insiste em carregar tudo o que gravou por tempos e tempos.

Não há como causar uma anulação do que já foi vivido! Não como cancelar as experiências, boas ou ruins, das quais a memória já registrou! O passado ainda revive numa memória saudável, mesmo que o passado adoeça o ser humano, por determinadas coisas que não se pode apagar.

Assim, nada melhor do que mergulhar a memória em coisas que trarão leveza, pois o que ela ama se torna eternal!

Quintana relata o que levará em si. Eu gosto. Gosto de entender que podemos embeber a memória de registros tão sublimes! Que o eterno causado pela memória será prazeroso e não um martírio mental! Há pessoas que são torturadas por suas lembranças dia a dia. Elas sempre necessitarão de preencher ao longo do tempo, sua memória de coisas que compensarão tal estado de angustia memorial.

Na mala memorial de Quinta, se encontra a liberdade, a beleza, o pueril e o imprevisto. Coisas que trazem sentido sem serem úteis. A memória eterniza a utilidade do que é inútil.

Do que sua mala memorial está repleta para os tempos que estão por vir?

Cuide de seus olhos, eles são escravos da memória! Contemple mais a beleza que foi espargida propositadamente do mundo.

Apure seu olfato, um perfume é capaz retorná-lo para tempos quase esquecidos! Ele abre um portal no tempo e no espaço e sequestra pessoas para lugares distantes e tempos esquecidos.

Nunca subestime seu paladar. Ele é capaz de fazer com que pessoas desejem sair das mesas mais caras, dos restaurantes amais afamados, para espaços mais simples, como a cozinha da vó materna! Isso tudo, apenas na entrada!

Entenda que seus ouvidos são capazes de ouvir as vozes, os gemidos, a canção; ainda que nenhum acorde seja executado. A memoria é capaz de oportunizar tal maravilha!

Que sua mala memorial, seja tal qual, a mala de um velho palhaço de circo, que ao se abrir no picadeiro, tudo o que revela é apenas magia, cores, alegria e beleza!

brejo

“(...) A saparia toda de Minas

Coaxa no brejo humilde

Hoje tem festa no brejo!

Carlos Drummond de Andrade

 

Quem compara sua vida a um brejo, desejoso em comunicar a péssima situação que experimenta, nunca conheceu um brejo.

Quando eu era menino de 10 anos, eu tinha meu próprio brejo. Bom, pelo menos de dia era meu, e à tardinha e noite, da saparia, incluindo as rãs, que juntos coaxavam como se reivindicassem a propriedade. Era lugar para amansar o pônei bravo, a queda era mais macia. E havia uma espécie de cama elástica, onde a molecada gostava de ficar pulando, e sentindo sob seus pés o aguaceiro retido pela trama de capim. O brejo servia de sossego em tempos de seca, nele o capim nunca acabava. Era onde as traíras se escondiam, e todo bom pescador sabia achá-las. Às vezes era preciso sangrá-lo, fazer pequenas canaletas que iam até o riacho, pois retinha muita água e o lamaceiro ficava insuperável. Nas canaletas podia-se encontrar argila. E com argila podia-se fingir de artista. E assim construir miniaturas de gado, de panelas, de vasos, … No brejo podia-se plantar. Colher. Comer. Algumas plantas despontavam com suas flores. Era um jardim que não precisava ser regado. Por ele voavam abelhas, borboletas e pássaros de todos os tipos e cantos. O brejo que eu possuía, também tinha festa!

Mas nem todo brejo se fixa do lado de fora da íris. Há alguns que são construídos no interior. No profundo do ser humano. Com uma vastidão incrível de lama. Lugar de difícil acesso, onde se corre o risco de ficar agarrado para sempre. O brejo de dentro não permite que a luz chegue. O brejo de fora se faz por sua luminosidade intensa. O de dentro não quer a celebração da vida. O de fora não pode evitar que a vida o celebre. O brejo de dentro é coroado de sentimentos lodosos – amargura, ressentimento, raiva, rancor, mágoa, tristeza,… Já o brejo de fora, vive com a movimentação dos animais cantores. O brejo de dentro perverte todo o exterior. O de fora converte todo o interior. O de dentro insiste que não há motivos para festa, pois tudo está no brejo. O brejo de fora realiza festa, sem se importar em motivos para tal.

No brejo pode acontecer festa! São os sapos que ensinam isso! Talvez por isso seja necessário engolir alguns sapos ao longo do tempo, pois eles sabem aproveitar um brejo. Quem ainda não engoliu um sapinho sequer, corre o risco de manter o seu brejo insignificante. Alguns sapinhos deveriam morar dentro de alguns seres humanos e assim arrumar seus brejos interiores. Tirar um pouco de lama aqui e ali! Renovar a água que de tão parada se encontra contaminada, e convidar algumas rãs para preencher o coral de anfíbios festeiros! Já pensou? Quando desse vontade de continuar na cama o dia inteiro como brejo mal cheiroso, um coaxar poderoso soava de dentro, e de repente, se entendia que por mais brejal que estivesse a vida, ainda haveria motivos de celebrar!

O Criador nunca se opôs aos brejos. No início de tudo, de acordo com a tradição judaico-cristã, Ele fez um pequeno brejo. Dele deu a forma de um ser humano. Inflou ar à forma que fez. E assim o ser humano passou a existir. Houve festa nesse brejo tornado gente. Depois do dilúvio, a mesma tradição diz que toda terra se transformou num grande brejo. Era início de dias melhores. A grande arca parou no brejo. A festa já acontecia na arca quando o brejo a serviu de cais de esperança. Jesus, ao curar certa vez um cego, fez em suas mãos um pequeno brejo de barro e cuspe. Com aquela maquete de brejo ele emplastrou a vista do cego, e ele passou a enxergar. Houve festa depois do brejo lançado em suas vistas. O brejo nunca foi visto pelo Mestre como empecilho para dias melhores.

Há um brejo dentro de você? Não se preocupe, haverá sempre um sapo para te ensinar, que até no brejo pode-se ter festa!

galinha

Era uma vez uma chácara que ficava numa cidadezinha de interior. Como de costume, seu espaço havia sido distribuído em pelo menos três partes. A parte da frente era para o jardim, e nele havia um gramado extenso, roseiras, hibiscos, orquídeas, bromélias, onze-horas… um viveiro para os canários belga, uma mangueira centenária e um balanço, feito de corda e pneu velho! A parte do meio era para os dias de sol escaldante, era onde ficava a piscina, com seu bounganville que dava as boas-vindas aos acalorados visitantes e as dezenas de damas da noite que emolduravam aquele mar de lugar sem praia. Junto da piscina uma casinha de boneca e ao lado da casinha, um portão azul, que rumava para o terceiro espaço, onde toda estória aconteceu – acho “estória” mais apropriado para o momento, gosto mais. O terceiro espaço era o terreiro, onde ficavam as criações do Seu Careca – nem pense que ele era calvo, os apelidos nem sempre possuem lógica, eles apenas nascem pra ficar. Pense num pequeno zoológico rural, era assim que Seu Careca fazia questão de deixar seu terreiro, completamente apinhado de criação. Nele podiam-se achar galinhas de várias raças, tamanhos, plumagens… Havia galinhas pequenas, médias e até da raça índio-gigante. E ainda as internacionais, as galinhas da angola. Os aquáticos eram muito divertidos, patos, marrecos, gansos. E também os mais garbosos, perus, faisões e pavões. Havia ainda espaço para um pequeno macal, um leitãozinho numa seva muito limpa, cimentada e com muita água. E como se já não fosse suficiente, coelhos branquinhos tinham acabado de nascer. Com árvores frutíferas por todo terreiro, caqui, ameixa, laranja, tangerina, pitanga, abiu, abacate… Seu Careca alimentava a jabuticabeira, uma de suas preferidas, com bastante água, dizia que era pra jabuticaba ficar maior e mais doce, sua neta mais velha tinha verdadeira paixão pela frutinha encantadora. Junto à bola de gude das frutas, havia um lago e tilápias para a criançada se divertir.

Mas houve um dia em que o dono da chácara se descuidou – as boas estórias sempre acontecem por causa de um descuido necessário – e a Brasilina          , uma galinha de idade, já bem pesada, de pescoço pelado e plumagem avermelhada, salpicada de dourado, preto e anis, daquelas bem caipironas, cujo canto pós postura soa arrastado, começou a chocar vários ovos, mas a diferença da ninhada da Brasilina, é que não havia um ovo sequer posto por ela. Ela já havia cessado o tempo de postura e só lhe restava chocar, ainda que ovos que não fossem seus! E assim, ficou ali aninhada com ovos ajuntados por ela mesma por dias e dias. Quando Seu Careca se apercebeu, Brasilina, depois de uma noite chuvosa, e terreiro seco pelo sol escaldante de verão, saiu com seus filhotes pela primeira vez do ninho. E para surpresa de todos, junto de seus pés, uma verdadeira atração da diversidade. Havia filhote de pato, marreco, ganso, peru, galinha da angola, um garnisé, uma franguinha preta, faisão, pavão e até um filhote de Jacú. Todos agora, filhos de uma só mãe, Brasilina, que cheia de si, passeava pelo terreiro sob olhar desconfiado de todos os outros.

Dias e meses se passaram, e no mundo animal, é como se anos, décadas passassem e Brasilina percebeu que seus filhotes tinham interesses variados. É assim em toda família. Mas na família de Brasilina, era ainda mais diferente, principalmente quanto à espiritualidade. E assim a caipirona, resolveu observar cada um. Um de seus filhos aquáticos, o marreco de Pequim, vivia isolado, numa solitude invejável. Dizia estar buscando uma energia, uma harmonização de si, das coisas de dentro, com as de fora. E balbuciava um mantra envolto de uma fumacinha que saía de uma caixinha de bambu. O filhote de Jacú, bicho do mato, se pintava sempre que havia cerimônias. Não gostava de andar vestido e quando precisavam de chuva, todo terreiro pedia que fizesse certa dança! O garnisé falava alto! Subia sempre em galhos, por causa da desvantagem na estatura. Gostava das prédicas emocionadas e às vezes fala tão rápido que ninguém entendia nada. Ele dizia que eram outros cantos, cantos estranhos ou ainda, cantos dos anjos. E por falar em outros cantos, o filhote de galinha da angola, sabia o que era isso. Tudo o que sabia sobre espiritualidade envolvia sons, levadas, batuques. Suas roupas eram sempre coloridas. Ele tirava aquele pijama que havia nascido com ele e se vestia das cores mais extasiantes da África. O filhote de cisne negro, sempre togado, falava tudo em latim, e esse canto, ainda que a maioria não entendesse, pelo menos todos sabiam: era latim! Havia beleza nos seus passos, e tudo que fazia era liturgicamente apropriado. Todos os respeitavam. Diziam que seus ancestrais foram os primeiros a chegar ao terreiro. O filhote de ganso havia nascido com uma plumagem especial. Acima de sua cabeça uma espécie de pompom. Ele respondia que era sinal de respeito para com a divindade. Gostava de festas, mas não comia determinadas iguarias. Às vezes punha-se perto do muro do quintal e chorava horas. Falava que isso aliviava a sua alma. O peru branco, nunca estava satisfeito, e protestava sempre que podia. Seu Careca cansou de limpar a porta do galinheiro, que sempre amanhecia com pegadas do animal. Seu Careca nunca percebeu que ele incrustava sempre 95 pegadas nela. Ele dizia que era a forma que encontrou de protestar! Diziam que seus antepassados vieram da América, mas há quem jurasse de pés juntos que antes, passaram pela Europa! Quem vai saber!? A franguinha preta, ainda que tivesse nascido com uma plumagem perfeita, cismava em vestir branco, era um vestido com turbante e tudo, cordões coloridos e sandália nos pés. Falava arrastado e devagar! Comia uma fritura com muita pimenta e na sexta-feira, ninguém mais a via. O filhote de pavão havia experimentado todo tipo de expressão religiosa, e acabou se preenchendo consigo mesmo. Não duvidava de nada. Não acreditava em nada. E assim fez da beleza seu culto principal. Por fim, Brasilina viu ainda, um patinho, feio, não compreendido, mal interpretado, por culpa de outros parecidos com ele. Ele encolhia e esticava o pescoço. Apontando pra algum lugar. Todo ano fazia uma viagem para um quintal vizinho e quando voltava dizia: – Todo pato deve uma vez na vida visitar esse lugar! E o tal lugar era tão especial, que várias vezes no dia ele parava seu nado no lago e se voltava para o quintal vizinho fazendo uma espécie de oração. E ainda havia outros filhos…

À medida que Brasilina percorria seus diminutos olhos entre seus filhos, encontrava outros com as mais diversas expressões de religiosidade e quanto mais observava, mais seu coração se alargava. Qual galinha daquele terreiro poderia ser mais feliz que ela? Qual mãe poderia experimentar e fomentar uma consciência de respeito, tolerância e afeto? Brasilina conseguia enxergar a beleza, mas não entendia a razão de tudo isso acontecer sob si.

Então, ao cair da tarde, como fazia, desde o dia em os que meninos haviam nascido, Brasilina deu um piado específico, e todos, de suas diferentes devoções, correram pra debaixo de suas asas. Naquele ambiente emplumado, todos se tocavam, se cheiravam, se abraçavam, se comunicavam, se relacionavam… e assim, sem perceber, Brasilina, era o ponto comum entre os diferentes filhos de sua ninhada. Nela havia comunhão, o que alguns chamariam de ecumenismo. Eu prefiro dizer, comunhão. O partir do milho e o compartilhar da água fresca da bica e no bico, não era celebrado ali. A celebração estava no fato de estarem juntos por algo maior, Brasilina, e por um sentimento maior, o amor, e por uma atitude maior, a tolerância.

Nada como descobrir o amor, para que o outro seja a mim revelado como irmão.