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Archive for the ‘Nas pastagens com Alberto Caeiro’ Category

A beleza é o nome de qualquer cousa que não existe

Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão.”     Alberto Caeiro

 

É pura carícia o agrado que não viola a liberdade humana. Quanto aos prazeres que aprisionam, que vendem e compram seres, que inutilizam a sensação de carícia, esses nunca serão prazeres, senão formas de engaiolar o ser humano através das grades da inaptidão de usar o sentido. Traduzindo o ser não consegue discernir, e desse modo o prazer não é prazeroso. Escritores, quando tocados pela carícia do agrado reverberam em metáforas. Metáforas nas mãos dos poetas é troca de carícia ao que lhes agradou. Pintores, acariciados pela maneira agradável como a luz se fazia no momento, se abrem às cores e anunciam tacitamente o agrado resplandecente. Monet era um nato ser que, se sentido agradado, sorria ou chorava de saudade(alegria que não se sabe lidar) nas cores, e luzes em telas. Músicos, e falar de tais seres, é invocar as vibrações que lhes assaltam pelo ventre, quando acometidos pela carícia do agrado, põe-se a ouvir músicas de lugares nunca explorados, e quando materializam-nas, aos ouvintes resta apenas a constatação: “- Essa música veio de outro mundo!” Mal sabem eles que músicas de outro mundo, são as que nascem de agrados peculiares. Ricardo Reis sabia disso, quando na presença de sua amada ele caracteriza o maior de todos os agrados…

Amemo-nos
tranquilamente, pensando que podíamos,

Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,

Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro

Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Eu cometi uma heresia ao ler pela primeira vez tais palavras, confesso mesmo correndo o risco ser lançado na fogueira. Ao final eu cometi o deslize de terminar com uma interrogação, inexistente. Ricardo Reis não deseja perguntar, ele afirma, conta uma verdade. A verdade que o agrado é puro em sua carícia, não se importando no toque, mas no que provoca. A beleza não deseja, portanto aprisionar, ela deseja voar e produzir vôos. Se ela passa, em forma de um cavalo que sacode ao vento sua crina e golpeia o ar, num trote libertário, ela quer alcançar muito mais do que os seus olhos. Se ela se interpõe entre sua vida, num fechar e abrir do semáforo. Quando um longo vestido é lançado ao vento, a beleza deseja mais do que atrair a atenção, ela quer ser contada a outros. Se ela te convence num sorriso largo do filho que retornou do colégio, naquele perfume mistado de alfazema e borracha escolar, a beleza que ser compartilhada por outros. Se ela surge na figura de um haikai, diminuto e certeiro por suas poucas palavras. Ela deseja ocupar pouco espaço, mas ser tão chamativa quanto um bonsai.

Eu não sei que nome posso dar a essas coisas que surgem assim. Gosto de C.S. Lewis e sua insistência em nomear como tais surpresas como magia. Então chamarei de magia, a beleza que me toca e insiste: passe à frente. Sim! Apenas magia.

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“E não estou alegre nem triste.”

     Alberto Caeiro

Um dia quando amanhece sem comunicar ao certo o que vamos encontrar durante todo o seu percurso, causa desconforto. Se não está quente, nem frio; se não chove, mas há muitas nuvens densas; se venta, e de repente tudo fica estático – mais do que numa paisagem em tela… Diante de um dia assim se pergunta: o que vestir? O que levar consigo? De que maneira não ser surpreendido?

A imprecisão na vida do ser humano causa o mesmo desconforto. Não ser e ser; ter e não ter; estar e não estar; … todo esse turbilhão de sentimentos controversos e convergentes num mesmo ser, é como um dia que esqueceu de ser dia, e mesmo nascido, renascido, parece noite.

A chuva não sofre disso, ou é chuva, ou não é – chuvisco, garoa, temporal, é tudo chuva, água que precipita. Os mares também não sofrem disso, são grandes, pequenos, profundos, menos profundos, pode ter até o nome de “Morto”, se não forem mares, serão outra coisa.

Mas quando olhamos para o ser humano, nada disso se encaixa. Há por alguns momentos uma incerteza que vem de dentro e por mais que se pergunte, o ser entre cá e lá não consegue dizer, como se sente, como se conduz, … o que é um girino? Aquela bio-vírgula que vaga em pequenos riachos? Alguns dirão: um peixinho. Ele nada, está sob a água, fica em cardumes pequenos… santa heresia biológica! Quando o mesmo é visto transmutado num gordo sapo, dizem: é um sapo! Mas o incômodo está quando o girino já avolumado, ganha pernas e ainda não perdeu a cauda, há formato de sapo, mas ainda não perdeu a de girino, não é de coloração preta, mas não se assemelha as multicores dos anfíbios… o que será? Sapo? Girino? Vai saber…

E por falar em sapos, os das histórias encantadas, possuem o mesmo dilema. São príncipes que vivem nos charcos, e que dizem num coaxar real: “ – Somos príncipes!”, e as pessoas respondem, “- Não; sois sapos!”. E eles persistem, “- Sapos não somos”, e as pessoas retrucam “- Nem ao menos sois príncipes”. Enfim, nem uma coisa, nem outra.

Dmitri Shostakovitch, compositor de música clássica russa, nascido na então União Soviética, foi protagonista de um estar “Caeirista” – ele também viveu assim, nem alegre e nem triste. Forçado a uma participação no governo stalinista, Shostakovitch sofria de um lado críticas da classe proletária, de outro, uma forçosa missão de compor para as estratégias de Stalin. Constantes censuras seguidas de permissões às suas obras, levaram o compositor a uma sucessão de sentimentos oscilantes. Compõs para si um requiem algo feito para homenagiar os mortos. Para muitos, Shostakovitch estava tramando sua própria morte, ou seja, um suicídio, o que não ocorrera, por medo que o compositor tinha da morte. Ao ser questionado sobre o serviço aos comunistas, por sua esposa, Shostakovitch respondeu: “- Não me pergunte nada! Se me amas não queiras saber de nada!” Suas músicas respondiam muito mais. Nelas além de suas iniciais apregoadas e revelacionais sobre o seu sofrer, críticas ao governo ditatorial.

Quando não se sabe como se está, quando as pessoas não alcançam a indefinição dos sentimentos, quando uma simples definição não contempla nem de longe o que se sente,… uma música, um poema… quem sabe, sem definição algumas eles consigam dizer o que se passa em nós, quando nem mesmo nós sabemos.

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Psique e Culpido - François Gerard

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.

     Alberto Caeiro

 

Sinto-me no dever de recomendar mais companhia aos que amam e protelam numa caminhada solitária. Todavia, a companhia a que me refiro, não necessariamente é encontrada no outro, em alguém que está ao lado. Diga-se de passagem, que há pessoas que mesmo circundadas de outras, vivem só. A sentença do pastor de pensamentos, Caeiro, é única. O amor, ou o que se ama, é companhia. Tem gente que não consegue amar gente, a ponto de torná-las companhia – por isso os cães tomam a dianteira, mas sem preconceitos.

Por vezes somos exigidos a encontrar amor e companhia num só pacote, lhe dão o nome de: amizade, namoro, casamento,… e quando percebemos, foi-nos furtado a companhia e o amor por outras coisas. Que fique claro – não sou contra as tradicionais companhias e amores, mas será que não existe outros amores e outras companhias?

Abro a janela da sala,o vento me deseja um bom dia, oro com ele no intuito de alcançar graças e num instante sinto-me em companhia de um pássaro amarelo mistado de preto que alcança a fruta e me olha como se dissesse: muito obrigado! Amo e basta para não me sentir sozinho. Abro o livro, é um poema e Adélia me convida para estar em sua casa, leio …

Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso

com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.

Quando se pôde abrir as janelas,

as poças tremiam com os últimos pingos.

Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,

decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.

Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,

trinta anos depois(…).

… e amo, sinto-me acompanhado de tudo. A chuva me respinga, a lama está nos meu joelhos, marcas de quem anda na terra depois que a chuva se despede, estou à porta aguardando a Adélia voltar…com certeza não fico sozinho depois que o livro é aberto. Lanço a massa na água quente, ela se solta e também perfuma a cozinha. O molho completa o perfume e contribui com cores, o vermelho, o verde(claro e escuro) e bem ao lado uma taça bem servida de tinto alegra… eu amo e me sinto bem acompanhado. Debruço-me de madrugada no pé da cama – todos dormem profundamente – e começo a falar, com meus pensamentos, é importante que ninguém acorde. Amo e me sinto acompanhado, é Deus? Eu sei bem quem É.

Andar só, apenas para quem esqueceu de que faz parte de um mundo onde todas as coisas foram feitas para nos acompanhar. Lembra-nos Quintana: (…)Pra que pensar?Também sou da paisagem…” e ser da paisagem é reconhecer a impossibilidade de andar só, a alternativa de estar sem gente, mas acompanhado de tanta coisa a que se ama e de que se é contemplado de companhia.

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O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.

Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

     Alberto Caeiro

Às vezes preciso me entregar a um rio simples assim. Apenas observa-lo, sem nada para pensar, apenas estar ali, sem motivo especial algum, e deixar o tempo passar.

Pode ser um crime, principalmente quando confrontamos os dias atuais, em que produzir sempre, a todo instante, até na contemplação é necessário. Se por isso me torno herege do pós-modernismo mecanicista, um usurpador dos ideais industriais, um terrorista da maquinação humana, por vezes tenho um enorme prazer de ser tudo isso.

Até quando sou obrigado a postar, começo a evitar um dos meus maiores amores, a escrita. E se serve de justificativa, quando meus textos demoram a aparecer, não se preocupe, fui até o rio que fica na aldeia de Caeiro e já volto.

E, que rio se tornou teu? Qual lugar você chega, tira as sandálias, e observa, sem nada pensar, sem se render a necessidade de produção, apenas ver?

Não vale os filmes ou programas televisivos, nem mesmo o computador, redes sociais, blog’s – ai meu Deus, não leve isso tão a sério, tá!?; os livros também estão fora de questão, o que eles são, se não máquinas para fazer pensar?; academias, também não valem, a gente fica contanto 1,2,3, … Ufa! E vendo: cresceu músculo? diminuiu gordura ? e pensando: o que se faz agora? e depois? … Ufa! Ufa! Ufa! Ufa! Ufa!

As distrações nem sempre nos distrai. É nesse suposto momento de descanso, que nos estressamos ainda mais. Volto a perguntar qual o teu rio?

Olhar pra criança enquanto dorme, não vale. Pensamos: o que o futuro lhe aguarda? Se sonha, em quê ou quem sonha? Dormir como se o mundo não mais existisse, não vale – é anestesia dos fracos, e ainda mais podemos ter pesadelos, de estarmos em nossa batalha diária, corremos muito mais riscos do que se imagina, quando estamos dormindo.

Talvez, a dificuldade em se achar um rio adequado esteja na dificuldade em se portar adequadamente diante do rio. Caiero deixa pistas… “Quem está ao pé dele está só…” não me refiro a uma postura solitária, e nem Caeiro, mas numa postura simples. Quem está que esteja apenas, tão somente, e não se esforce em nada mais, pois pensar pode levar para longe e mesmo que se esteja diante do Taj Mahal, – eu queria um dia visita-lo, corre-se o risco de, pensando, migrar para o escritório onde se trabalha e então… Nunca ninguém viu o rio que Caeiro viu, nunca ninguém verá o rio que você pode alcançar com os olhos puros de quem decidiu apenas estar, tão somente ser, do momento e do rio que só exige ser visto.

Despeço-me para que você esquadrinhe, busque um rio adequado onde possa estar, apenas estar e nada mais. Sucesso em sua jornada, espero que o encontres…

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“Sejamos simples e calmos,

Como os regatos e as árvores,

E Deus amar-nos-á fazendo de nós

Belos como as árvores e os regatos,

E dar-nos-á verdor na sua primavera,

E um rio aonde ir ter quando acabemos!”   Alberto Caeiro

Ah! Quanta paz em tão poucas palavras. Nelas reencontro o verdadeiro elo perdido. Nelas descubro o quanto de felicidade e paz é encontrado nas águas que correm e na sombra verde que se assenhora de mim. Sempre que retorno às palavras de Caeiro, especificamente as citadas acima, sinto cheiro de argila e areia à beira do córrego, de capim recém molhado pelo orvalho da madrugada, de estrume curtido do curral, de limão caído ao chão do terreiro, de sela suada da cavalgada anterior, de cana triturada junto ao angolão, … e tudo isso me dá paz.

Quem nunca pensou, quando nos momentos difíceis da vida, na proposta de Caeiro? Ou parecido a ele: Bom mesmo é ser canário-da-terra, vive sem temeridade, canta seu canto, salpica o verdor com seu pequeno sol levado ao peito, e quando se cansa, veste sua túnica lima e vai dormir em paz.

O luxo e a agitação nos transforma em proprietários, importantes, Senhores e Senhoras, … e por mais que seja beneficiador, num mundo volvido unilateralmente para a imagem e dissociado da essência, o ser humano encara a realidade que talvez rios e árvores sejam mais felizes.

Pensar na felicidade da natureza em relação a do ser humano, é antes de tudo, denunciar uma infelicidade do ser. Não há mais lugar para a simplicidade e a felicidade no mundo pós-moderno, portanto, não há também lugar para luxo e a infelicidade, resumindo, a padronização pós-moderna impediu a existência das maravilhosas vidas bem vividas, tornando-as sempre exceções. Então: quando alguém enfrenta tudo e todos e diz – sou simples, calmo e feliz – para o pensamento pós-moderno, é exceção; quando alguém assume a infelicidade em meio ao luxo adquirido por tempos corridos e de trabalho – para o pensamento pós-moderno, é exceção. A diversidade no mundo com suas experiências de felicidade e infelicidade, está longe da padronização pós-moderna. O simples e o calmo, o luxo e a agitação, senão compreendidos e bem vividos podem ser caos na vida de qualquer ser, caracterizado por bens ou não.

O rio é rico e por vezes agitado; as árvores, guardam sistemas valiosíssimos em seus galhos, e basta achar um caminho de saúvas e todo cenário calmo, transborda de agitação, a diferença deles para nós está no fato de que eles não desejam e nem pensam ser outra coisa. Eles se acham tal como são, e vivem a natureza que lhes foi forjada. O ser humano, ao contrário, tão dono, não sabe o que verdadeiramente é, e por que, ou por quem se vive; desculpa-se num turbilhão de compromissos, batiza isso de vida, e impõe que nasça felicidade.

Enfim, o fato não é ser simples, luxuoso, calmo ou agitado nas relações infinitas do ser, mas unicamente ser o que é, nunca se entregando a modelos de vida, que prometem o final feliz, quando nem mesmo o começo anuncia alguma finalidade.

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caminhando-a-chuva

“Pensar incomoda como andar na chuva”   Alberto Caeiro

 

Não pensar! Se for possível, é algo que retira o desgaste do dia e introduz certa calmaria no ser humano agitado. Assistir um programa inútil, levar os ossos para passear sem rumo ou qualquer objetivo, exercitar-se numa momentânea contemplação…enfim, fazer o caminho inverso do: “Penso, logo existo”. Proponho então o “Não-penso, logo, sobrevivo”, mantenho-me pronto para outros momentos de desgastes do pensamento, quando reservo a mim momentos de não-pensar.

Um alto executivo – tendo de tomar decisões constantes que envolvem uma carga de pensamentos e possibilidades a serem ponderadas, pessoas e suas ações na empresa, ações demissionárias e metas constantes para avaliações e tantas outras responsabilidades que agregam ao cargo – deverá ser criterioso no seu não-pensar. Um policial que enfrenta as terríveis condições de trabalho – desde o confrontamento com bandidos, perpassando pelos baixos salários, as tentações propinais, a expectativa da sociedade por uma conduta de super-herói – deverá ser sensato na escolha do seu não-pensar. Um atleta – que passa horas concentrado no trabalho do corpo e das metas, na superação, por vezes, solitária de si mesmo, no esgarçamento do físico até dores freqüentes e quase domesticadas – deverá ser rápido quanto ao seu não-pensar. Entendo com isso a prática de algumas senhoras donas do lar, que após cozinha e casa bem arrumadas, filhos encaminhados aos colégios, e a bóia do esposo entregue, isso, todos os dias, colocavam-se a costurar, a fazer de novelos, arte. Sem pensar no retorno dos seus, sem pensar no dia de amanhã, quando tudo recomeçava, apenas trabalhando as mãos… sem pensar! 

Adélia Prado confessa: “Fiz curso de filosofia para escovar o pensamento,/não valeu.(…)” – para escovar o pensamento, nada melhor do que não pensar. As donzelas, antes de dormir, tinham a prática de descasar os cabelos, que durante o dia, ficavam encarapitados com os adornos da época. E para descasar as longas madeixas, elas escovavam seus cabelos por longos momentos, era uma contra rotina, um não-pensar para os cabelos.

Tão necessário quanto a rotina, trazida por um pensamento mecanicista e pós-moderno de produção e atuação profissional, é o antídoto da rotina, que eu chamo de não-pensar. Se sou um leitor assíduo, necessito, de um momento da não-leitura, mas se sou uma pessoa voltada à ações práticas, necessitarei de períodos não-práticos, contemplativos.

Bom, quero que você pense, o quanto é importante não-pensar em determinados momentos dessa vida. Talvez tenha razão, é impossível deixar de pensar! Então, pense de maneira que você não está acostumado a pensar, dê um descanso à mente, mas não permita que esse descansar se transforme em outro enfadonho e cansativo momento de descanso. Os dias de passeio à beira-mar se tornam cansativos quando são colocados na agenda, o happy hour com os amigos de trabalho, se faz prisão, quando ganha status de compromisso, até a poesia, perde a cor, quando de antídoto, passa a ser um vício. O que é de tão especial nos momentos do não-pensar, é que eles são livres e devem produzir liberdade. Fora disso, é apenas uma nova maneira de se agrilhoar a outras prisões do pensar.

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Do filme "Click"

Do filme "Click"

 

Tristes das almas humanas, que põem tudo em ordem,

Que traçam linhas de cousa a cousa,(…)”       Alberto Caeiro

 

 O mal mais desejado do ser humano, penso, é o de controlar todas as coisas. Através disso estabelece-se toda a vida, carregada de “absoluta perfeição”, “perfeição” provinda da sensação de ter em mãos todas as coisas. Com isso, pessoas são coisificadas, tornadas coisas, objetos; relacionamentos são fixados pelo alicerce da vantagem; valores são moldados para servirem a um determinado fim estabelecido… O que se está em jogo, não é o quanto se pode obter a partir dessas decisões, mas o quanto e o como se pode controlar. É na extasiante sensação de controle, que o ser humano pós-moderno se realiza. Tudo parece em perfeita harmonia, quando esse tudo se encontra subjugado à vontade do ser humano controlador. Porém, além de ser viciante, o controle sobre tudo e todos, é irreal e contraproducente. O controle limita, não permite que o ser humano, vocacionado à criações em momentos imprevisíveis ultrapasse as barreiras. Sob o prisma do controle, tudo está metrificado, inclusive as atitudes do controlador. O pensamento controlador é mecanicista, um paradoxo alienado, visto que, ao mesmo tempo em que impõe o controle, é controlado por suas regras inquestionáveis e insubstituíveis. O martírio para o controlador hermético, é passar por caminhos alternativos. Um pouco distante do estabelecido, é como se tudo estivesse perdido. A alma humana forjada para o criativo, por mais que seja levada para viver essa perspectiva controladora, adoece, e nas palavras de Caeiro, fica triste. O ser humano por si, desde que fora retirado do Grande Jardim, investiu numa mente criativa e criadora, para que errante, nas imprevisibilidades sobrevivesse. Um erro de cálculo, uma mudança direcional, os ventos que traçam a rota não estabelecida, a frustração do que se esperava – após de encaradas como perdas, atrasos, avarias, são campo aberto para a libertação das almas chamadas à criatividade. Quando um garanhão que passou a noite no estábulo é solto, ele não ganha as pastagens letargicamente. Sua saída rompante o denuncia: Foi criado para os campos abertos, o ser humano controlador foi quem o confinou a pequenos cercados. Assim a alma humana se entristece quando é levada ao estábulo do controle. E sai às carreiras, mesmo no inesperado. Quintana, desaguando por águas incontroláveis, invoca a necessidade da liberdade contida no imprevisível: “E o meu destino é seguir… é seguir para o Mar,/(…)/Deixa-me fluir, passar, cantar…” Quer grandes ou pequenos, os rios sempre levam o ser humano ao chamado original – seguir, mesmo que as margens sejam outras. Nietzsche não usa outras palavras quando associa a liberdade ao ser humano, e este à criatividade. Diz por Zaratustra: “A vontade liberta porque a liberdade é criadora.” Portanto, o controle que gera a doença da tristeza na alma, descolore a vida, embrutece a sensibilidade, empobrece os valores, enrijece as inovadoras decisões, fenece o ser humano por mais controlador que seja… Até a crise, por tão controlada, não causa divertimento, quando superada pelo excessivo controlador. Ele diz, com ares sem graça e descoloridos: tudo estava no controle! Por outro lado, a alma livre, e disposta a enfrentar as imprevisibilidades da vida, ao superar mais um momento: esmurra os céus com um soco no ar, comemora com os funcionários ou colegas de serviço, enfim, compartilha, é gol marcado e comemorado. A criatividade aflora a alegria, e todos se sentem vitoriosos. A alma humana agradece! De controles, a controles, já bastam aqueles dos aparelhos de entretenimento no lar!

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