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Archive for the ‘O mar do mineiro Carlos’ Category

brejo

“(...) A saparia toda de Minas

Coaxa no brejo humilde

Hoje tem festa no brejo!

Carlos Drummond de Andrade

 

Quem compara sua vida a um brejo, desejoso em comunicar a péssima situação que experimenta, nunca conheceu um brejo.

Quando eu era menino de 10 anos, eu tinha meu próprio brejo. Bom, pelo menos de dia era meu, e à tardinha e noite, da saparia, incluindo as rãs, que juntos coaxavam como se reivindicassem a propriedade. Era lugar para amansar o pônei bravo, a queda era mais macia. E havia uma espécie de cama elástica, onde a molecada gostava de ficar pulando, e sentindo sob seus pés o aguaceiro retido pela trama de capim. O brejo servia de sossego em tempos de seca, nele o capim nunca acabava. Era onde as traíras se escondiam, e todo bom pescador sabia achá-las. Às vezes era preciso sangrá-lo, fazer pequenas canaletas que iam até o riacho, pois retinha muita água e o lamaceiro ficava insuperável. Nas canaletas podia-se encontrar argila. E com argila podia-se fingir de artista. E assim construir miniaturas de gado, de panelas, de vasos, … No brejo podia-se plantar. Colher. Comer. Algumas plantas despontavam com suas flores. Era um jardim que não precisava ser regado. Por ele voavam abelhas, borboletas e pássaros de todos os tipos e cantos. O brejo que eu possuía, também tinha festa!

Mas nem todo brejo se fixa do lado de fora da íris. Há alguns que são construídos no interior. No profundo do ser humano. Com uma vastidão incrível de lama. Lugar de difícil acesso, onde se corre o risco de ficar agarrado para sempre. O brejo de dentro não permite que a luz chegue. O brejo de fora se faz por sua luminosidade intensa. O de dentro não quer a celebração da vida. O de fora não pode evitar que a vida o celebre. O brejo de dentro é coroado de sentimentos lodosos – amargura, ressentimento, raiva, rancor, mágoa, tristeza,… Já o brejo de fora, vive com a movimentação dos animais cantores. O brejo de dentro perverte todo o exterior. O de fora converte todo o interior. O de dentro insiste que não há motivos para festa, pois tudo está no brejo. O brejo de fora realiza festa, sem se importar em motivos para tal.

No brejo pode acontecer festa! São os sapos que ensinam isso! Talvez por isso seja necessário engolir alguns sapos ao longo do tempo, pois eles sabem aproveitar um brejo. Quem ainda não engoliu um sapinho sequer, corre o risco de manter o seu brejo insignificante. Alguns sapinhos deveriam morar dentro de alguns seres humanos e assim arrumar seus brejos interiores. Tirar um pouco de lama aqui e ali! Renovar a água que de tão parada se encontra contaminada, e convidar algumas rãs para preencher o coral de anfíbios festeiros! Já pensou? Quando desse vontade de continuar na cama o dia inteiro como brejo mal cheiroso, um coaxar poderoso soava de dentro, e de repente, se entendia que por mais brejal que estivesse a vida, ainda haveria motivos de celebrar!

O Criador nunca se opôs aos brejos. No início de tudo, de acordo com a tradição judaico-cristã, Ele fez um pequeno brejo. Dele deu a forma de um ser humano. Inflou ar à forma que fez. E assim o ser humano passou a existir. Houve festa nesse brejo tornado gente. Depois do dilúvio, a mesma tradição diz que toda terra se transformou num grande brejo. Era início de dias melhores. A grande arca parou no brejo. A festa já acontecia na arca quando o brejo a serviu de cais de esperança. Jesus, ao curar certa vez um cego, fez em suas mãos um pequeno brejo de barro e cuspe. Com aquela maquete de brejo ele emplastrou a vista do cego, e ele passou a enxergar. Houve festa depois do brejo lançado em suas vistas. O brejo nunca foi visto pelo Mestre como empecilho para dias melhores.

Há um brejo dentro de você? Não se preocupe, haverá sempre um sapo para te ensinar, que até no brejo pode-se ter festa!

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