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Archive for the ‘O pássaro Rubem e seus encantos’ Category

galinha

Era uma vez uma chácara que ficava numa cidadezinha de interior. Como de costume, seu espaço havia sido distribuído em pelo menos três partes. A parte da frente era para o jardim, e nele havia um gramado extenso, roseiras, hibiscos, orquídeas, bromélias, onze-horas… um viveiro para os canários belga, uma mangueira centenária e um balanço, feito de corda e pneu velho! A parte do meio era para os dias de sol escaldante, era onde ficava a piscina, com seu bounganville que dava as boas-vindas aos acalorados visitantes e as dezenas de damas da noite que emolduravam aquele mar de lugar sem praia. Junto da piscina uma casinha de boneca e ao lado da casinha, um portão azul, que rumava para o terceiro espaço, onde toda estória aconteceu – acho “estória” mais apropriado para o momento, gosto mais. O terceiro espaço era o terreiro, onde ficavam as criações do Seu Careca – nem pense que ele era calvo, os apelidos nem sempre possuem lógica, eles apenas nascem pra ficar. Pense num pequeno zoológico rural, era assim que Seu Careca fazia questão de deixar seu terreiro, completamente apinhado de criação. Nele podiam-se achar galinhas de várias raças, tamanhos, plumagens… Havia galinhas pequenas, médias e até da raça índio-gigante. E ainda as internacionais, as galinhas da angola. Os aquáticos eram muito divertidos, patos, marrecos, gansos. E também os mais garbosos, perus, faisões e pavões. Havia ainda espaço para um pequeno macal, um leitãozinho numa seva muito limpa, cimentada e com muita água. E como se já não fosse suficiente, coelhos branquinhos tinham acabado de nascer. Com árvores frutíferas por todo terreiro, caqui, ameixa, laranja, tangerina, pitanga, abiu, abacate… Seu Careca alimentava a jabuticabeira, uma de suas preferidas, com bastante água, dizia que era pra jabuticaba ficar maior e mais doce, sua neta mais velha tinha verdadeira paixão pela frutinha encantadora. Junto à bola de gude das frutas, havia um lago e tilápias para a criançada se divertir.

Mas houve um dia em que o dono da chácara se descuidou – as boas estórias sempre acontecem por causa de um descuido necessário – e a Brasilina          , uma galinha de idade, já bem pesada, de pescoço pelado e plumagem avermelhada, salpicada de dourado, preto e anis, daquelas bem caipironas, cujo canto pós postura soa arrastado, começou a chocar vários ovos, mas a diferença da ninhada da Brasilina, é que não havia um ovo sequer posto por ela. Ela já havia cessado o tempo de postura e só lhe restava chocar, ainda que ovos que não fossem seus! E assim, ficou ali aninhada com ovos ajuntados por ela mesma por dias e dias. Quando Seu Careca se apercebeu, Brasilina, depois de uma noite chuvosa, e terreiro seco pelo sol escaldante de verão, saiu com seus filhotes pela primeira vez do ninho. E para surpresa de todos, junto de seus pés, uma verdadeira atração da diversidade. Havia filhote de pato, marreco, ganso, peru, galinha da angola, um garnisé, uma franguinha preta, faisão, pavão e até um filhote de Jacú. Todos agora, filhos de uma só mãe, Brasilina, que cheia de si, passeava pelo terreiro sob olhar desconfiado de todos os outros.

Dias e meses se passaram, e no mundo animal, é como se anos, décadas passassem e Brasilina percebeu que seus filhotes tinham interesses variados. É assim em toda família. Mas na família de Brasilina, era ainda mais diferente, principalmente quanto à espiritualidade. E assim a caipirona, resolveu observar cada um. Um de seus filhos aquáticos, o marreco de Pequim, vivia isolado, numa solitude invejável. Dizia estar buscando uma energia, uma harmonização de si, das coisas de dentro, com as de fora. E balbuciava um mantra envolto de uma fumacinha que saía de uma caixinha de bambu. O filhote de Jacú, bicho do mato, se pintava sempre que havia cerimônias. Não gostava de andar vestido e quando precisavam de chuva, todo terreiro pedia que fizesse certa dança! O garnisé falava alto! Subia sempre em galhos, por causa da desvantagem na estatura. Gostava das prédicas emocionadas e às vezes fala tão rápido que ninguém entendia nada. Ele dizia que eram outros cantos, cantos estranhos ou ainda, cantos dos anjos. E por falar em outros cantos, o filhote de galinha da angola, sabia o que era isso. Tudo o que sabia sobre espiritualidade envolvia sons, levadas, batuques. Suas roupas eram sempre coloridas. Ele tirava aquele pijama que havia nascido com ele e se vestia das cores mais extasiantes da África. O filhote de cisne negro, sempre togado, falava tudo em latim, e esse canto, ainda que a maioria não entendesse, pelo menos todos sabiam: era latim! Havia beleza nos seus passos, e tudo que fazia era liturgicamente apropriado. Todos os respeitavam. Diziam que seus ancestrais foram os primeiros a chegar ao terreiro. O filhote de ganso havia nascido com uma plumagem especial. Acima de sua cabeça uma espécie de pompom. Ele respondia que era sinal de respeito para com a divindade. Gostava de festas, mas não comia determinadas iguarias. Às vezes punha-se perto do muro do quintal e chorava horas. Falava que isso aliviava a sua alma. O peru branco, nunca estava satisfeito, e protestava sempre que podia. Seu Careca cansou de limpar a porta do galinheiro, que sempre amanhecia com pegadas do animal. Seu Careca nunca percebeu que ele incrustava sempre 95 pegadas nela. Ele dizia que era a forma que encontrou de protestar! Diziam que seus antepassados vieram da América, mas há quem jurasse de pés juntos que antes, passaram pela Europa! Quem vai saber!? A franguinha preta, ainda que tivesse nascido com uma plumagem perfeita, cismava em vestir branco, era um vestido com turbante e tudo, cordões coloridos e sandália nos pés. Falava arrastado e devagar! Comia uma fritura com muita pimenta e na sexta-feira, ninguém mais a via. O filhote de pavão havia experimentado todo tipo de expressão religiosa, e acabou se preenchendo consigo mesmo. Não duvidava de nada. Não acreditava em nada. E assim fez da beleza seu culto principal. Por fim, Brasilina viu ainda, um patinho, feio, não compreendido, mal interpretado, por culpa de outros parecidos com ele. Ele encolhia e esticava o pescoço. Apontando pra algum lugar. Todo ano fazia uma viagem para um quintal vizinho e quando voltava dizia: – Todo pato deve uma vez na vida visitar esse lugar! E o tal lugar era tão especial, que várias vezes no dia ele parava seu nado no lago e se voltava para o quintal vizinho fazendo uma espécie de oração. E ainda havia outros filhos…

À medida que Brasilina percorria seus diminutos olhos entre seus filhos, encontrava outros com as mais diversas expressões de religiosidade e quanto mais observava, mais seu coração se alargava. Qual galinha daquele terreiro poderia ser mais feliz que ela? Qual mãe poderia experimentar e fomentar uma consciência de respeito, tolerância e afeto? Brasilina conseguia enxergar a beleza, mas não entendia a razão de tudo isso acontecer sob si.

Então, ao cair da tarde, como fazia, desde o dia em os que meninos haviam nascido, Brasilina deu um piado específico, e todos, de suas diferentes devoções, correram pra debaixo de suas asas. Naquele ambiente emplumado, todos se tocavam, se cheiravam, se abraçavam, se comunicavam, se relacionavam… e assim, sem perceber, Brasilina, era o ponto comum entre os diferentes filhos de sua ninhada. Nela havia comunhão, o que alguns chamariam de ecumenismo. Eu prefiro dizer, comunhão. O partir do milho e o compartilhar da água fresca da bica e no bico, não era celebrado ali. A celebração estava no fato de estarem juntos por algo maior, Brasilina, e por um sentimento maior, o amor, e por uma atitude maior, a tolerância.

Nada como descobrir o amor, para que o outro seja a mim revelado como irmão.

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Só fico triste quando vejo quebra-cabeças formados, colados em um compensado e transformados em quadros. O quebra-cabeças foi assassinado. Ninguém poderá ter mais o prazer de montá-lo. O quadro é a sua urna funerária”.

 Rubem Alves

Eu era adepto de assassinar quebra-cabeças, embora nunca tenha participado de uma caçada desse tipo. Admirava os troféus pendidos nas paredes, como quem observa as cabeças dos prêmios, daqueles que fazem safáris e colecionam gnus, antílopes, leopardos e leões. A mim, as peças só faziam sentido se estivessem mortas, uma ao lado da outra, silenciadas pela moldura que envolvia, a cola que as tornava estáticas, o acrílico sufocante à frente e o prego que centralizava aquela arte morta nas paredes. Assim eu era em relação aos quebra-cabeças emoldurados.

Até que uma boa nova chegou ao meu pequeno mundo. Um evangelho dos jogos, uma revelação dos brinquedos sem idade definida, um apocalipse dos jogos didáticos. As palavras e o responsável por tais transformações, citados acima, proclamam a libertação dos quebra-cabeças e se possível, nos últimos dias, a ressurreição deles!

E foi de fato uma conversão. De repente eu me entristeci das vezes que me deleitava diante de um quebra-cabeças abatido. Sofri de culpa por longos elogios pelo aprisionamento de todos eles. E envergonhado pelo olhar insensível, chorei… e tão logo percebi que não era apenas por causa de um jogo que eu me ressentia, mas por uma vida inteira que teima em ser quebra-cabeças, e eu reluto em que ela esteja enquadrada, emoldurada.

Vida enquadrada é quebra-cabeças do diabo. Quebra-cabeças acabado, não tem mais graça. Vida acabada, realmente já acabou. E tentar montar a vida e emoldurá-la é projeto do cão. Vida boa é aquela que nos desafia! Por incrível que pareça, a vida pulsa quando as peças estão misturadas, quando o encaixe das peças se faz difícil e desafiador. Essa é de fato a vida que Deus dá. Vida arrumadinha e prestes a ser emoldurada é tentação do diabo. Vida que Deus dá, é quebra-cabeças inacabado, livre, solto, que gera frio na barriga pela expectativa de vir a dar certo, ou também errado, e ter de começar tudo de novo.

Quando Jesus se encontrava no deserto, logo após seu batismo, estavam as peças todas desarrumadas à sua frente, misturadas, sem encaixe. Fome sem pão. Poder sem permissão de sua execução. Rei sem reino. O diabo então propôs arrumar tudo, encaixar as peças e emoldurá-las. A tentação se faz em resolver todo mistério. Como diria Quintana, o Mário: “Não desças, não subas, fica./ O mistério está é na tua vida!” Fazer com que o jogo não aconteça. Encerrar o prazer da brincadeira. Negociar o prazer de viver misteriosamente o encaixe das peças, pelo desprazer do quebra-cabeças encerrado, é cair, descer, ceder à proposta tentadora de abraçar o quebra-cabeças do diabo.

E como em todo quebra-cabeças, há riscos de que peças se percam, que outras nunca venham a se encaixar, risco do quebra-cabeças se tornar incompleto pra sempre. O falecimento do filho, é peça perdida no quebra-cabeças da vida. O casamento que se desfez, é peça que não se encaixou. Enfermidade crônica, uma peça nas mãos que hesitamos encaixar no jogo. A saudade dos falecidos. A casa antiga que foi demolida. A rejeição alheia. Existem peças que parecem pertencer a outros quebra-cabeças, peças que funcionariam em outra vida, ou que não deveriam estar em nossa vida. Afinal, temos a ilusão de terminar o nosso quebra-cabeças! Ou seria a tentação?

Um quebra-cabeça inacabado, tal como a vida, roga apenas que os que brincam, não pensem nunca em terminar, apenas jogar até…

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