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Archive for the ‘A voz rouca de Adélia’ Category

Cabana4

Que a fonte da vida é Deus,

há infinitas maneiras de entender.

Adélia Prado

 

Querida Adélia,

Há muito queria ter escrito a você essas palavras. Mas nem sempre as novidades são interessantes, ou talvez, eu não me sentia interessante há muito tempo. Acontece que eu fui ao cinema. Fui assistir um livro que se transformou em filme. E todo livro que se transforma em filme vira livro para preguiçosos. Livro que ganha mais grana e mais status. Desculpe minha ácida sinceridade.

Eu não li o tal livro, aliás, comecei a lê-lo, mais achei muito devagar e parei nas primeiras páginas. A chancela de best-seller na capa do livro me causou má impressão, eu sou assim, uma pessoa não muito boa. Mas eu fiquei intrigado, pois ouvi que o filme, tal como o livro, falava sobre Deus. Eu gosto de coisas que falam sobre Deus. Aliás, quando você fala sobre Deus eu entendo melhor do que quando os teólogos divagam sobre a Divindade, o Sublime. Teólogo, que é teólogo, não fala Deus, fala Sublime, Divindade. E raramente chamam a divindade de Pai. Quando você, Adélia, fala de Deus, eu ouço coisas diferentes. Eu chamo essas coisas diferentes de revelação.

Fui sozinho ao cinema, não sozinho de gente, mas largado. Eu fui nu ao cinema, não desprovido de roupa, mas aberto. Eu fui como sou, não como era, uma impressão para impressionar alguém, mas limpo de alma. Eu fui, Adélia.

A mesma sensação eu obtive ao ler as páginas do livro, é uma questão de ritmo, cada um dança melhor num ritmo. O ritmo não me agradou muito. Mas em compensação, querida, a maneira como Deus é apresentado no enredo da história, sobrepuja toda falta de cadência exigida por mim – ser impaciente, apressado, inserido numa sociedade cujo tempo se liquefaz.

Confesso aos seus olhos Adélia, que já fui um repetidor de um Deus criado por homens. Era um Deus triste. Cinza. Bolorento. Que tinha respostas pra tudo. E quando não tinha, era porque não queria responder. Onde já se viu Adélia, achar que Deus tem respostas pra tudo!? Deus não se envolve em responder questionários. Ele vive entre nós. Era sobre isso que eu dizia Adélia, que havia ido ao cinema sem… sozinho do repetidor sem reflexão, despido da pretensa de responder em nome de Deus todas as coisas, limpo das cadeias e algemas que me exigiam figurar num teatro sem alegria, cor, ou plateia. Eu não sabia e nem sentia tanto incômodo, até encontrar a saída “cegante” da caverna.

Querida, sei que posso falar isso pra você! Quando eu olho Deus, não necessariamente eu olho pra cima! O Deus que me atraiu, assim como o menino Jesus de Alberto Caeiro, mora comigo, na terra, no mundo e na lama. Ele pra mim é negro! Não se assombre, por favor! Mas pode ser branco, amarelo, índio… para outros! Ele não se desencantará pra mim, quando for o Deus de outro! Desde que continue sendo livre, sopro, ar não condicionado aos ditames humanos. O meu Jesus é um jardineiro, um viajante e um chef de cozinha! Não foi assim que ele foi visto pós-ressurreição? Eu continuo com os olhos da pós-ressurreição. E o Espirito Santo – claro que não tenho olhos pra vê-lo! Mas você consegue ver o perfume do alho fritando no óleo? Consegue saber onde está a ansiedade antes de se apresentar em seu coração? Consegue ver o drama do filho por detrás de um sorriso tenso? Não, Adélia! É tudo invisível! Mas sabemos que estão lá.

Mas o que me causa mais admiração Adélia, é que Ele – como você chama Deus? – sabe muito bem apresentar-se a nós! Por isso as experiências ao longo do tempo são instrumentos poderosos para a chegada de Deus à nossa história. Todas as marcas que ficaram na memória, são tapete vermelho para o ilustre convidado. Quer um conselho Adélia? Não recolha nem uma de suas experiências! Nunca se sabe quando Ele … o resto você sabe!

Por uma cabana…

Por um luto…

Por um poema…

Por um divórcio…

Por um pôr-do-sol…

Por uma dívida…

Por uma taça de vinho…

Por uma enfermidade…

Por uma frustração…

Por um perfume…

Por uma queda…

Por um sorriso…

Por uma ofensa…

Por uma música…

Por qualquer coisa que Ele quiser que fique marcado na memória, e assim, desse modo, livremente, Ele se faz tão aparentemente nosso.

Qual a sua cabana Adélia?

Eu sei, há um Deus tão perto, que só eu sou capaz de reconhecê-lo!

O Deus das minhas marcas!

Afinal, cada um possui a sua cabana!

#acabana #adeliaprado #aceia #christianoalves

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“(…) Escrevi cartas,

Remeti pelo correio a copa de uma árvore,

Pardais comendo no pé um mamão maduro

– coisas que não dou a qualquer pessoa –

e mais que tudo, taquicardias,

um jeito de pensar com a boca fechada,

os olhos tramando um gosto.

(…)” Adélia Prado

Querida Adélia,

Gostaria de escrever cartas próximas as tuas, remetendo-lhe imagens que celebram conquistas, amores e paz. Todavia, ainda não me foi permitido tamanha festa. Acontece que estamos nos aproximando ao dia 8 de março, e a história de sempre me causa tristeza. Mulher, Adélia, não pode ser lembrada apenas nas festividades do Dia Internacional da Mulher, a propósito, hoje não vejo o que festejar. Minha inquietação se dá por ter assistido uma reportagem que fazia da beleza feminina uma verdadeira maldição, a causa de tantas belas mulheres terem sido seqüestradas e mortas nos últimos tempos. Adélia, eu pensei em você naquele instante e perguntei: o que a Adélia diria sobre isso? Penso que a beleza nunca será criminosa, mas o que se faz dela. Adélia, a culpa não está no encantamento que a beleza feminina causa no mundo, mas nos sociopatas, na morosidade de um governo conivente por sua omissão, no fingimento político e social da importância feminina nos dias atuais… Adélia, eu nunca condenaria alguém por ser belo. Condená-lo é condenar a existência da beleza, que fora espargida nos quatro cantos do universo, sem reservas, sem economia. O problema Adélia, está no que se faz com a beleza feminina. A mulher foi transformada em objeto. Por isso, pode ser adquirida, nas revistas masculinas, em filmes destinados a fins hedonistas, na prostituição a preços baixos ou para executivos, a altíssimas cifras, em sites que permitem tais fins de maneira virtual, enfim, a mulher foi exposta numa prateleira social e para os sociopatas, não há distinção: todas fazem parte do processo real de coisificação da mulher, o fato de ser mulher, basta para os psicopatas enxergarem como objeto a ser obtido. Adélia, pasme você, as belas vitimas, foram mulheres inteligentes e bem situadas socialmente, independentes e que regiam áurea de conquistadoras para o universo feminino, e mesmo assim, os seus algozes não diferenciaram a mulher, da mulher, ou seja, a que é objeto, e a que se manteve gente, pessoa, ser humano. Sabe, Adélia, somos culpados. E a culpa recai sobre nós, quando aprovamos o desfile que celebridades fazem ao trocarem sucessivamente de pares, como se fossem simplesmente coisas; quando insensíveis permitimos que danças, sem nenhuma raiz folclórica, torne brincadeira de nossas crianças, numa educação de inversão de valores, em que desde a tenra idade o menino vê a menina como um objeto a ser conquistado mais tarde, depois dos bonecos, jogos e a bola de futebol; quando incitamos que os filhos sejam colecionadores de meninas; quando fomentamos que o papel feminino se localiza em ser útil ao macho, e o que é útil, ou inútil, senão o objeto Adélia? Cada vez que ritualizamos a passagem da mulher de ser humano para coisa, objeto, autorizamos aos psicopatas a realizarem seus funestos planos, com as damas da pós-modernidade. Algumas caíram no engano, quando a elas foi oferecido a liberdade. Adélia, liberdade não está em fazer o que se quer até tornar-se objeto e ficar agrilhoado nas mãos de outrem. Liberdade hoje, está em ser gente, humano, em se desvencilhar do processo de coisificação e ser, apenas ser…livre.

Adélia, não quero cair como muitos em dizer: “Hoje temos uma presidenta, as coisas mudarão para as mulheres”. Penso ser isso um machismo ultrapassado e um desrespeito às mulheres. O cargo maior do Brasil não deve ter sexo, cor, religião e se não fosse o caso, nem mesmo partido político, mas… A questão minha cara, está em nossas mãos, pensamentos e reflexões, para ações preventivas e formadoras, coisa de base, de quem muda sorrateiramente, porém, definitivamente. Lá em cima, eles continuam lidando com o atraso político, são atitudes que agem contra o mau resultado, cada vez maior, o que impedem de uma mudança advinda das causas. Adélia, qual será o tema que avultará as manchetes dos jornais nos primeiros dias de março?

Aguardo notícias,

Saudades, Eu.

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Por causa dele falo palavras como lanças.” Adélia Prado

Reconheço que há exceções no regramento. Todavia, a diminuta parcela representada em “As Brasileiras” não remonta o habitual contexto vivido pelas mulheres brasileiras arraigadas no país ou derramadas nos quatro cantos do mundo.

A Rede Globo de Televisão – quero deixar claro que não sou daqueles anti-globais, mas não sou o típico idiotizado pelos meios de comunicação – estréia em sua programação uma série em que a partir de seu título, enredo, trama e propósitos deseja ser o porta voz da mulher brasileira, aquele que reflete a mulher como ela é; o que descortina todo o mundo feminino do contexto tupiniquim. Traduzindo, uma leitura hipermoderna e de mau gosto do que deve ser a mulher brasileira. Até Nelson Rodrigues  se envergonharia da gigantesca força que se faz para acreditarmos que a mulher brasileira está em patamares tão diminutos.

Não é de hoje que a mídia declara verdadeira ojeriza às mulheres, com mobilizações de diversos tipos e em diversas áreas. Não são poucas as atitudes para coisificar a mulher, torná-la puramente objeto, trancafiá-la num mundo imagético, defraudá-la na capacidade de refletir, pensar, opinar e direcionar seus passos com liberdade, sem que seja preciso libertinagem. O local conhecido como “casa da luz vermelha”, “casa de tolerância”, “bordel” ou simplesmente, “zona”, possui abrangência muito maior nos dias de hoje. E a manutenção de certos locais, hoje, se faz pela manutenção de certos pensamentos. O que antes era admitido para a iniciação sexual de jovens e desfrute de prazer sem culpa dos demais, hoje se dá para a manutenção de mulheres nas prateleiras do ideal masculino deteriorado. A antiga “casa de tolerância” se tornou em tolerância de toda a casa. E então se tolera uma imagem deturpada da mulher brasileira em rede nacional.

As brasileiras que conheço e ouço falar, lutam por seus filhos, casamento e casa. Organizam-se pra que direitos lhes sejam dados. Investem em sua carreira, através de estudos, cursos, trabalho abnegado. Com seus esposos, ou ainda, destituídas deles, confrontam a lógica e desafiam os legalistas, cuidando, em sua maioria, de seus filhos de maneira exemplar. Tomam nas madrugadas do dia, conduções apinhadas de gentes, e por horas suportam todo o tipo de abuso – desde a insensibilidade governamental aos desaforos de homens animalizados – para tão somente iniciar a lida em busca de sobreviver. As brasileiras que conheço, rezam, oram, … elas crêem. Lançadas no descaso, mostram por vezes, o corpo combalido por homens violentos, como numa profecia viva e denunciante de um mundo permissivo à injustiça. De maneira primorosa, exemplificam a verdadeira vontade pela vida. Não são poucas que se postam nos hospitais cuidando de filhos, do lado de cá e de lá das prisões, mantendo a esperança de que um dia tudo será diferente. As brasileiras pensam em sexo. Mas não pelo prisma do homem. Essa coisa de sexo sem amor, apenas os homens e os cachorros reconhecem.

Não! A série “As Brasileiras” definitivamente não representa as brasileiras no todo. Não! Definitivamente, a exceção, caso esteja representada aqui, não coaduna com tantas e tantas brasileiras de nossa nação.

O país da presidenta, é ainda o país da mulher honrada, livre, feliz, desafiada, crente, culta, amorosa, piedosa, aguerrida, persistente, bela, digna, … mas passível de tanto parodoxo social.

Resta-lhes não permitir que sejam representadas por pequenos exemplos que não verbalizam o todo. As brasileiras, eu sei quem são. E vejo no que querem torná-las.

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Muito maior que a morte é a vida

Adélia Prado

A Primavera Árabe, despertamento das nações do oriente, ainda que nem todas estejam inseridas no mundo árabe, tem promovido um verdadeiro retorno ao tempos em que o direito de defesa não existia e tudo o que se sabia fazer, era cumprir e fazer cumprir a máxima diretiva: “olho por olho, dente por dente”.

Há a meu ver uma verdadeira blasfêmia, associar ao que se pode ver – também nas entrelinhas, do processo “libertatório” de tais povos ao que chamamos e reconhecemos ser: primavera.

Na primavera tipicamente dos trópicos, os raios solares invadem sem nenhuma devastação o ambiente, lançando vagarosamente o inverno no esquecimento, até dissuadi-lo em sua permanência, e promove verdadeiras transformações, que de tão transparentes e sinceras, se fazem belas pela vegetação que novamente alcança o verdor e as flores nas multifacetadas cores e formas. Animais reaparecem com as famílias aumentadas, os brotos surgem vertiginosamente aos olhos, e a vida mais uma vez se faz notória, forte e eterna. Talvez ao se pensar no surgimento de povos antes oprimidos, que tal expressão, “primavera árabe”, passou a ser usada. É bem provável que devido a um brotar de manifestações e articulações nascidas no canteiro hipermoderno de idéias, a internet, a primavera oriental foi estabelecida. Porém inegavelmente, as flores que tem sido vistas, são as de cor de sangue, e isso não me cheira bem. Principalmente, quando próximo às raízes da Primavera Árabe, enxergo adubos Made in USA. O cheiro realmente não é nada bom.

Armas, munição, carros, combustível, … aos rebeldes. Uma crise financeira nos países interessados em que a primavera desperte. Áreas petrolíferas em locais onde deflagram as mais intensas lutas pelas reformas políticas locais. E muito sangue derramado por parte de todos os envolvidos, pró ou contra a uma adubação externa politicamente intencionada provinda dos que desejam uma liberdade arquitetada, para que outra imposição se configure no local. Assim, as flores de cor sangue brotam por todos os cantos no mundo árabe. E não possuem tempo para findar. Iraque e Afeganistão sabem o que é isso.

A primavera árabe me cheira a uma neo-pax romana. Imposição de paz. Imposição de língua. Imposição de cultura. Imposição religiosa. Imposição de justiça. Os Estados Unidos não estão lançando moda, apenas revisitam o que aconteceu nos tempos iniciais dos séculos. Tudo hoje numa nova roupagem, nova grife, mas como sempre foi e aconteceu na era romana. O império tem outro nome, seus métodos são diferentes, mas as finalidades: as mesmas.

A primavera árabe, me cheira a uma frente fria que acaba com as pretensões de quem numa tarde de domingo queria visitar o parque da cidade com toda a família, debaixo de um sol educado, assenhorados de flores felizes, salpicado de ventos regulares e timidamente frios vindo do interior da mata próxima. A primavera árabe é um boneco bem articulado que foi entregue em mãos maldosamente articuladas, para que todos que assistem o espetáculo não observem o manipulador, apenas a flor que ao final ele concede ao público sob palmas e esfuziantes sorrisos. Ah! A flor tem uma cor. Sim! Vermelho sangue.

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“O ovo não cabe em si, túrgido de
promessa,

A natureza morta palpitante.

Branco tão frágil guarda um sol ocluso,

O que vai viver, espera.

Adélia Prado

Há alguns anos meu filho me perguntou, sobre o que encontraríamos depois de nossa morte. Ele era bem pequeno, mas impressionado pelo falecimento de pessoas próximas, foi iniciado na morte precocemente. Respondi sua pergunta, não sei se satisfiz suas necessidades.

Inevitavelmente, toda criança passa por esse momento de curiosidade sobre o morrer. Eu mesmo tive, e fui satisfeito por minha rotina rural, quando na companhia de meu pai, abatia animais para a alimentação doméstica de qualidade. Portanto, frangos, porcos, peixes, ovos – pintinhos impedidos de se concretizarem como tal, eram vistos como alimento e também um rito de iniciação ao mistério da morte. Todavia, esses eu os via como pratos em potencial, e para satisfazer ainda mais a minha fome de descoberta quanto ao morrer, meus colegas e eu, depois de abater algumas lagartixas, que vagavam na pequena pedreira do quintal, as colocávamos nos tijolos furados do muro, e acompanhávamos todo o processo de putrefação. Sabíamos, coitadinho dos bichos, por eles, o que a morte causava ao que antes era cheio de vida. Saímos com a certeza absoluta que por pior que fosse a vida, a morte nos impedia completamente de viver, e isso bastava para não desejá-la, terminada as experiências “necro-infantis”.

Abordada por ângulos diferentes, a morte, no filme de Quentim Tarantino – “Kill Bill 2” perpassa por todos, até ganhar cores na experiência infantil de B.B. a filha de Bill e Beatrix Kiddo, personagens vividas por Perla Haney-Jardine, David Carradine e Uma Thurman. Sua experiência: pisar no peixinho de estimação retirado do aquário e desse modo testificar o significado da morte. Não só os adultos são atormentados pelo mistério do morrer, além de atormentadas, as crianças são convidadas ao descobrimento dela pela simples curiosidade infantil. Mas além da curiosidade infantil ingênua, não causadora de dramas, nossas crianças tem visto a morte como fuga da vida. E essa rota, cada vez mais usada por elas tem sido preocupante. Uma carência de experimentar através de peixinhos de aquário e animais que servem para o abate – perdoe-me os defensores de animais, pode ser um motivo de tamanha alienação quanto às conseqüências da morte. Os jogos em que a personagem morre, e depois é apenas “resetar” que tudo volta como antes, pode ser outro motivo para acharem que na realidade a morte também funciona com um “press reset”. Porém, a insatisfação e a alienação quanto à vida, é, a meu ver, as maiores responsáveis por tantas desistências por parte de nossas crianças. As crianças não precisam ser vítimas de uma sociedade causadora de multiviolências e alvo do descaso público para rumarem à morte como se fossem fazer apenas uma viagem e que regressarão intactos. Por viverem diante de uma constante educação da insatisfação, são didaticamente formados para não enxergarem os benefícios da vida, mas, os seus frequentes malefícios. E insatisfeitos por completo e alienados sobre a morte, abrem tal porta pesada e se lançam pós ela, não obstante o que receberem, mas convencidos que a vida é decepcionante, restando à ela, as costas infantes.

Detectar essa educação da insatisfação é fácil. No discurso dos adulto está impregnado, desde a compra do celular, ao casamento; do carro semi-usado, ao condomínio; (…) uma vasta aplicação de palavras que denunciam um desagrado e uma insatisfação contínuos e muitas vezes ilógicos. A criança então se desenvolve sabendo que a insatisfação é parte integrante da vida, sem que ela necessite de algum motivo. Rumar para algo desconhecido é a decisão mais rápida e próxima para anulação de tal assombração. A morte se apresenta como saída aos jovens e crianças.

O menino que após balear a professora, faz de si mais um alvo, pergunta sem esperar qualquer resposta: O que é a vida? O que é a morte? Vale mesmo viver? Quais as conseqüências para quem morrer? E tantas outras perguntas ele deixa nascer em nós. Com histórico que não deixa pistas – estamos acostumados com os “psi” facilmente indentificáveis, perguntamos qual a motivação? O por quê? Quando deveríamos lembrar que temos educado crianças a terem suas insatisfações sem a necessidade de justificativas plausíveis.

Não há sequer religiosidade capaz de impedir tal drama. As insatisfações humanas, desde sempre ganham os céus e acusam Deus. Qual jovem ou criança que por mais religioso consiga sair ileso numa educação da insatisfação? Apenas as exceções. Infelizmente elas não têm sido assim, nos números que registram as atitudes de nossos infantes descontentes com a vida, insatisfeito com o viver, desesperançosos com o futuro.

Quantos mais se revelarão confusos entre vida e morte? Alvo e professora? Futuro e fim? Hoje, nossas crianças e jovens não se diferem dos soldados de Osama, são Kamikases, hipermodernos. Se estes foram forjados por um radicalismo religioso ou nacionalista, os nossos por um outro radicalismo, o comportamento degradante.

Deus tenha misericórdia!

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“(…) Escrevi cartas,

Remeti pelo correio a copa de uma árvore,

Pardais comendo no pé um mamão maduro

– coisas que não dou a qualquer pessoa –

e mais que tudo, taquicardias,

um jeito de pensar com a boca fechada,

os olhos tramando um gosto.

(…)” Adélia Prado

 

Querida Adélia,

Gostaria de escrever cartas próximas as tuas, remetendo-lhe imagens que celebram conquistas, amores e paz. Todavia, ainda não me foi permitido tamanha festa. Acontece que estamos nos aproximando ao dia 8 de março, e a história de sempre me causa tristeza. Mulher, Adélia, não pode ser lembrada apenas nas festividades do Dia Internacional da Mulher, a propósito, hoje não vejo o que festejar. Minha inquietação se dá por ter assistido uma reportagem que fazia da beleza feminina uma verdadeira maldição, a causa de tantas belas mulheres terem sido seqüestradas e mortas nos últimos tempos. Adélia, eu pensei em você naquele instante e perguntei: o que a Adélia diria sobre isso? Penso que a beleza nunca será criminosa, mas o que se faz dela. Adélia, a culpa não está no encantamento que a beleza feminina causa no mundo, mas nos sociopatas, na morosidade de um governo conivente por sua omissão, no fingimento político e social da importância feminina nos dias atuais… Adélia, eu nunca condenaria alguém por ser belo. Condená-lo é condenar a existência da beleza, que fora espargida nos quatro cantos do universo, sem reservas, sem economia. O problema Adélia, está no que se faz com a beleza feminina. A mulher foi transformada em objeto. Por isso, pode ser adquirida, nas revistas masculinas, em filmes destinados a fins hedonistas, na prostituição a preços baixos ou para executivos, a altíssimas cifras, em sites que permitem tais fins de maneira virtual, enfim, a mulher foi exposta numa prateleira social e para os sociopatas, não há distinção: todas fazem parte do processo real de coisificação da mulher, o fato de ser mulher, basta para os psicopatas enxergarem como objeto a ser obtido. Adélia, pasme você, as belas vitimas, foram mulheres inteligentes e bem situadas socialmente, independentes e que regiam áurea de conquistadoras para o universo feminino, e mesmo assim, os seus algozes não diferenciaram a mulher, da mulher, ou seja, a que é objeto, e a que se manteve gente, pessoa, ser humano. Sabe, Adélia, somos culpados. E a culpa recai sobre nós, quando aprovamos o desfile que celebridades fazem ao trocarem sucessivamente de pares, como se fossem simplesmente coisas; quando insensíveis permitimos que danças, sem nenhuma raiz folclórica, torne brincadeira de nossas crianças, numa educação de inversão de valores, em que desde a tenra idade o menino vê a menina como um objeto a ser conquistado mais tarde, depois dos bonecos, jogos e a bola de futebol; quando incitamos que os filhos sejam colecionadores de meninas; quando fomentamos que o papel feminino se localiza em ser útil ao macho, e o que é útil, ou inútil, senão o objeto Adélia? Cada vez que ritualizamos a passagem da mulher de ser humano para coisa, objeto, autorizamos aos psicopatas a realizarem seus funestos planos, com as damas da pós-modernidade. Algumas caíram no engano, quando a elas foi oferecido a liberdade. Adélia, liberdade não está em fazer o que se quer até tornar-se objeto e ficar agrilhoado nas mãos de outrem. Liberdade hoje, está em ser gente, humano, em se desvencilhar do processo de coisificação e ser, apenas ser…livre.

Adélia, não quero cair como muitos em dizer: “Hoje temos uma presidenta, as coisas mudarão para as mulheres”. Penso ser isso um machismo ultrapassado e um desrespeito às mulheres. O cargo maior do Brasil não deve ter sexo, cor, religião e se não fosse o caso, nem mesmo partido político, mas… A questão minha cara, está em nossas mãos, pensamentos e reflexões, para ações preventivas e formadoras, coisa de base, de quem muda sorrateiramente, porém, definitivamente. Lá em cima, eles continuam lidando com o atraso político, são atitudes que agem contra o mau resultado, cada vez maior, o que impedem de uma mudança advinda das causas. Adélia, qual será o tema que avultará as manchetes dos jornais nos primeiros dias de março?

Aguardo notícias,

Saudades, Eu.

 

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”Eu sempre sonho que uma coisa gera,

nunca nada está morto.

O que não parece vivo, aduba.

O que parece estático, espera.”      Adélia Prado 

 

Sou habitante de Nova Friburgo, RJ. E como escrevi sobre o Haiti, a longa distância, hoje in locu escrevo sobre o que tenho vivido junto de todos os moradores da chamada Suiça brasileira. Mas vamos combinar, não falarei sobre o que passamos, sobre as mortes e perdas, sobre os pesadelos, as sirenes e os vôos dos helicópteros, falarei sobre o amanhã. É o que todos aqui da serra fluminense anseiam, olhar ao longe, e ver o depois, enxergar além da vida que se tornou diferente depois da catástrofe que nos combaliu.

Busquei inspiração na ave mitológica mais famosa, a Fênix, mas qualquer ave que fosse, mesmo a ave de fogo, a que renasce d as cinzas, não se harmonizaria com o que vivemos. A desdita não ocorreu como em Niterói, RJ, anos 80, um circo acometido pelo fogo, aqui houve água, muita água, como se um dilúvio fosse. Lembrei-me das Escrituras Sagradas, da ressurreição, do Cristo que surge de uma fria gruta para avida que lhe espera. Animei-me, mas lembrei da pedra do sepulcro, de como era pesada, lembrei-me que fora rolada – e confesso que aqui na serra, até o rock’n roll será ouvido de maneira diferente, depois de tantas rochas que vieram dos altos montes para habitar conosco. Foi então que do lodaçal visto aqui e ali, vi uma cidade surgindo, de maneira elevada, decida e encantadora. Somente a flor de Lótus poderia representar isso.

A flor de Lótus possui muitas histórias que a envolve, todavia, na sua maneira de vir à tona que tudo a faz parecida com a nova Nova Friburgo. De charcos e águas lodosas a flor de Lótus se agrada. Através deles ganha força, nutri-se, e invade a atmosfera com encantadora beleza. Ela desorienta qualquer observador, quando às escusas, pretende fingir-se morta e então, de maneira mágica, salta aos olhos de todos numa erupção de persistência, esperança e paz. Qualquer prognóstico negativo em relação a flor de Lótus é um risco, como em relação a cidade de Nova Friburgo, o melhor é prognosticar: Nova Friburgo virá à tona! A Adélia, profeta, nos lembra: “O que parece estático, espera.”

Semente na terra, ovo na chocadeira, panela no forno, casulo de borboleta … e em meio a toda situação da cidade, Augusto nasceu. Filho de amigos, Augusto – Augustus, significa sagrado, reverenciado, digno de respeito (um nome muito usado pelos Imperadores Romanos, demonstrava o que desejavam), nascido em meio ao ápice do caos que se encontrava Nova Friiburgo, como uma flór de Lótus ele deu as caras e persistentemente, como profeta que ousa falar em tempos de calamidade, brandiu para todos: “O que parece estático, espera.” e para os mais simples: “A vida continua!”

Eu creio, a minha flor de Lótus ressurgirá, deixará o fundo escuro, a lama, o passado. Olhará para o alto, despertará alva, sem mácula das pedras e do barro que suja até mesmo a alma, reinará nos charcos da vida, será exemplo de superação e todos olharão para minha flor de Lótus e voltarão a sorrir.

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