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Archive for the ‘Nietzsche e sua maçã’ Category

Típica característica de uma sociedade hipermoderna, a exacerbação do uso da imagem tem feito vítima e vítimas. Gelson Domingos, cinegrafista da Rede Bandeirantes de Televisão, foi uma das mais recentes. A sociedade hipermoderna, e, portanto, imagética, busca: da imagem do corpo perfeito, ao encarte do sanduiche perfeito; dos inúmeros vídeos às inúmeras fotos, postados na internet; num culto irracional à caixa de imagens, TV, aos espelhos da vida que refletem imagens a todo instante, uma
maneira de viver condicionada tão somente pelo sentido da imagem.

A imagem vendida e comprada, alugada, comercializada, protagonizada por uns, respeitada por outros, e tantas outras tipificações da imagem fazem parte de um emaranhado de mensagem imagéticas, cujo ser humano hipermoderno, não consegue se desvincular, o que o torna principal refém da imagem.

O que fazia já nos seus últimos vinte anos de profissão, o cinegrafista Gelson? Servia à sociedade imagética, que vem se afastando da noticia escrita e até falada e se aperfeiçoando na imagem. Saber pelo testemunho de outro, não excita, não envolve o ser humano da sociedade imagética. É necessário, ver, ter as imagens captadas, estar ali, mesmo que por detrás das câmeras. Desse modo o ser humano vem abandonando a realidade dos relacionamentos e se dobrando ante a virtualidade e seu império de imagens. Nos aspectos religiosos, crer não é a base. É preciso alcançar alguma imagem do Deus invisível. Anjos, fogos, brilhos, manifestações, …

Vejo a imagem do lanche, Nº1, meus olhos desejam, eu compro e após tê-lo em mãos, percebo a discrepância a imagem comprada e o artigo recebido. O vestido que brilha no corpo padronizado da modelo se torna perfeito a mim. Pelo menos é o que meus olhos dizem. Eu o compro, sem experimentá-lo, (meus olhos, minha razão ) e quando o visto em casa, percebo a distância entre o brilho do vestido na modelo, o brilho dele em mim. E tantas outras experiências possui o ser humano hipermoderno e por isso, imagético, e ainda assim, mesmo em meio a tantas frustrações, o ser humano refém de tais imagens caminha pelas imagens, alimentando-se delas, mesmo que a realidade queira despertá-lo a outras perspectivas.

Não estaríamos envolvidos pela fatalidade ocorrida, envolvendo tão nobre cinegrafista? Não seríamos os que, ávidos por uma imagem mais aproximada do perigo, impulsionam outros à linha de frente para nos alimentar? O que desconsideramos quando nos voltamos apenas para a satisfação de ver, ainda que no conforto do nosso lar? A transmissão ao vivo da Guerra do Iraque, foi a mais clara evidência da sociedade imagética. Enquanto, corpos eram dilacerados, crianças vitimadas em amplos aspectos, jovens soldados num patriotismo enganador e vil sucumbiam até pelos chamado “fogo amigo”, fazíamos nossas refeições diante da TV, seguros das minas terrestres e dos inúmeros mísseis que cortavam Bagdá, ignorando e ignorantes de que por detrás das lentes que captavam o showzinho de terror, pessoas estavam arriscando vidas em prol de nossa transloucada dependência de imagens.

A retratação de nossa patia se constata, quando ao invés de refletir todo o contexto que levara à morte o cinegrafista, estamos sôfregos para ver as últimas imagens captadas por aquele que morreu vítima de uma sociedade imagética.

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Lutero, essa fatalidade de monge, restabeleceu a igreja e,

o que é mil vezes pior, o cristianismo inteiro,

exatamente no instante em que ele havia sucumbido…

Ecce Homo.  F. Nietzsche

Ao abordar aspectos meramente teológicos, resumidamente, a Reforma Protestante do Séc. XVI irrompeu a aurora da graça. As inúmeras maneiras de se adquirir favores da parte do Sublime, quer por aquisição de relicários com seus conteúdos, ou numa prática religiosa acentuadamente direcionada a fins pré-estabelecidos, não mais surtiam efeito, pós-apregoação das tais famosas 95 teses de Lutero. A maneira como isso deflagrou na Europa, e suas indeléveis conseqüências, podem ser percebidos nas palavras acima do filósofo, Nietzsche. Não apenas uma igreja, mas o cristianismo retornou a respirar os ares renovadores da graça.

O que já havia ateado fogo no coração de Agostinho de Hipona, volta a chamuscar outro coração, agora o de Lutero, a saber, a passagem das Escrituras Sagradas que retratam a centralidade da salvação: “o justo viverá por fé”. A salvação, o fato do ser humano alcançar moradas celestiais, não está presa e a mercê da instituição, a igreja. E nem refém das atividades meramente humanas, a caridade. Ela mora na graça, no ato de crer em Jesus como Senhor e Salvador.

Não há preço, não há convencimento humano por suas atitudes, não há penitência, ou auto-penitência da mais sangrenta e esfoladora, capaz de persuadir que as portas das mansões celestiais sejam abertas. Não se pode, na perspectiva reformada arrombar os céus, em nome de igrejas ou ações humanas de caridade. O abrir dos portões celestiais acontece pela vontade de Deus, em conceder, em dar, em presente tão somente de graça e pela graça. Os portões se abrem quando há a exigência de conceder o dom da salvação aos que nada merecem, e nem por muito esforço se tornam merecedores. Deus deseja conceder, sem esperar trocas banais inventadas pelo ser humano que deseja manipular outros seres humanos.

Como nos versos de Drummond…

O amor é dado de graça,

é semeado no vento,

Na cachoeira, no eclipse.

Numa homenagem ao poeta, vejo uma nítida relação em Lutero e Drummond. As palavras de Drummond nos convidam a crer num amor que não roga respostas, apenas em acreditá-lo. Amor que semeia no vento, não deseja reter grãos nas mãos e muito menos que eles voltem. Amor que se lança na cachoeira, não tem esperanças de retorno. Você já viu alguma cachoeira regressar em seu curso? Amor que observa eclipse, deposita suas expectativas no fugidio, efêmero, na bela fraqueza. Drummond diz: acreditem no amor que não roga paga. No amor que se doa sem pensar em disperdício. Acreditem, pois, isso é amor. Lutero apregoa: a graça é amor dado por amor. Acreditem nesse amor. Amor livre de instituições, e de maquinações humanas. Amor que é livre como grão lançado ao vento pelo semeador, como a cachoeira que circunda pedras e desce sem cerimônia alguma. Amor que é livre de acontecer como eclipse, e não há quem o possa parar, quando deseja partir.

A Reforma foi o poema de Drummond acontecido de maneira teológica no séc. XVI.

O poema de Drummond, foi a tese resumida no tamanho pocket, tipicamente dos tempos atuais.

Que privilégio fazer o encontro dos dois. Profetas em seus tempos. Arraigados na mesma essência, a de quem verdadeiramente ama, a essência de quem apenas ama.

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O SILÊNCIO DE MAGALI

Haiti – O país dos Rest Avec Avous

“Eu sou entre esta gente (…)

 meu próprio canto de galo nas ruas escuras.”

Assim falou Zaratustra. F. Nietzsche

Por escolher a maior de todas as dádivas do ser – a liberdade, os haitianos foram alvo de cruéis vinganças político-econômicas por parte de quem os subjugava e na aquiescência de outras nações que ignoraram o que resultaria as sanções e as cobranças sobre um povo destruído pela escravidão e por conseqüentes desajustes políticos internos.

Há poucos dias premiado, o filme – quero considerar assim, “Haiti, o país dos Rest Avec”, é uma profecia hipermoderna, que denuncia a construção, ou seria, desconstrução de histórias que vão sendo tecidas desde o preço pago pela liberdade: A miséria Uma triste constatação, diante das lentes do filme, é a de que alguns haitianos desejam voltar no tempo e se entregarem aos antigos senhores das terras e deles próprios. Todavia, alegria plena, ou melhor seria, alívio tranqüilizador, saber que apesar de tanta violência – a dos Fundos Monetários Internacionais contra o Haiti, o número de suicídios ser insignificante diante de tamanha desdita. Ou seja, à pergunta produzida pelo tempo, por parte de países aproveitadores: Escravidão ou miséria? Os haitianos têm respondido celeremente mesmo em meio aos caos: Liberdade! Mesmo num silêncio arrasador. Por parte de quem deveria responder às misérias – a humanidade além dos mares e por parte de Magali.

Após horrendo terremoto, outro profeta que revelou a fragilidade de prédios – os de concreto e os que foram erguidos política e economicamente, Magali fora encontrada sozinha ante os escombros. O golpe foi pesado. Nenhum deles sobreviveu ao peso que se jogou sobre a história da menina. Desde então, apenas o silêncio de Magali.

Seria tal silêncio uma metáfora de nós mesmos, que apenas observamos histórias sofrendo por pesados golpes e nada, absolutamente nada esboçamos? Estaria Magali, mais do que traumatizada, verbalizando através do silêncio, a dura constatação de que não adianta ter voz para uma nação em que ouvidos não são encontrados? Seria, a atitude de Magali, a essência do “dar a outra face” de Jesus, ou a filosofia da não-violência de Ghandi, tão utilizada por Luther King – Golpes invisíveis que voam no tempo e no espaço e atingem fundo pelo interstício que resta no ser humano? A vida pode continuar como está, mas nunca será a mesma, depois de ouvir o silêncio de Magali. O jornalista Lucio de Castro, com a sua equipe, o time da Espn Brasil, coroada pela voz de Luis Alberto Volpe, e não poderia ser outro a narrar, concedem voz à tácita Magali. E diante de tamanha verberação, o silêncio da menina, é capaz de ecoar além das comoventes tonalidades prestadas por Volpe.

Além de Magali, Jean Baptist, o cego cantor, com nome de profeta. Sua melodia também afrontadora e destemida não deseja consolar, mas causar novos tremores numa sociedade esquecida. Lembro-me das palavras das Escrituras Sagradas, quando anunciam novos tempos: “Os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados,  e aos pobres está sendo pregado o evangelho.” Sim! Do Haiti Magali fala pelos quatro cantos da terra e Jean Baptist prova enxergar mais do que as águias negras no céu!

Obrigado Lúcio de Castro, por ser instrumento para tal “milagre”!

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Não há calamidade mais dura em todos os destinos humanos

do que quando os poderosos da terra

não são ao mesmo tempo os primeiros homens.

 Assim falou Zaratustra. F. Nietzsche

Não há surpresa alguma quando novamente figurando os jornais, o nome da cidade de Nova Friburgo, agora se vê vinculado às acusações de desvio de verbas federais destinadas a maior catástrofe natural do Brasil. Infelizmente, nós que vivemos aqui, diante de tamanha morosidade éramos levados a duas conclusões: incompetência dos governos e mau caratismo no uso do erário público. Enquanto as denúncias não são apuradas, prefiro ficar com a primeira conclusão. Todavia, algumas reflexões são necessárias. E voltar um pouco na história não faz mal a ninguém.

Quando a última eleição ocorreu nos arredores do município – e nenhum vidente foi capaz prever tamanha desdita, o povo de maneira irresponsável e massificada, comprou um planejamento de governo no mínimo irresponsável. Na época, surgiu diante do povo e à frente de todos os demais candidatos à Prefeitura do Município, uma caricatura, risível, bem humorada, tipificando confiança e experiência. Foi uma cartada perfeita dos marketeiros locais, uma junção do antigo numa nova roupagem, o que conquistou inclusive os jovens. Tudo numa caricaturada candidatura, sobre trilhos e vôos nunca imaginados, três em cada quatro eleitores, destinaram seus votos numa paródia, chamada de plano de governo. Aliado a tudo isso, soma-se, idosos num saudosismo irresponsável, adultos num momento de pura diversão e adolescentes e jovens caminhando para as urnas como quem se destina às festas de final de semana, e obtém-se um perfeito ingrediente para que as perspectivas futuras não fossem tão promissoras assim. Como toda piada tem prazo de validade. A tal caricaturada candidatura, e eleita legitimamente, também expirou. E não seria diferente ao se tratar que nessa candidatura, uma personalidade importantíssima, já tinha passado dos oitenta anos de vida. Nada contra os idosos, mas a estimativa de vida de qualquer ser humano, necessita de análise para a liderança de cargos importantes. Não é mera formalidade quando os reis eram e são saudados com: “Vida longa ao Rei”.

E por falar em realeza, as confusões na sucessão do trono no reinado de Nova Friburgo, já eram grandes quando as águas nos atingiram. Sabemos o que foi tudo aquilo!

Hoje, estamos à beira de uma dura calamidade, a qual Nietzsche discorre como sendo a mais cruel de todas. A que advém das mãos humanas, do ambicioso mundo em que os governantes não sabem mais sair. Há nos altos escalões da sociedade um buraco negro que sorve indiscriminadamente tudo o que deveria ser destinado para o bem público. Há uma insistência em se aproveitar diante de oportunidades. Há uma conduta pétria, que se instala em meio aos descompromissados – a conduta de repartir, comprar, usurpar o que não é seu, incluindo bens, coisas, ideais, partidos, pensamentos, discursos e até pessoas.

Tenho medo do que oram tais pessoas. Enquanto nos casebres o povo roga: “Chuva diminua!”, penso que até em nome de “deus”, oram os poderosos da terra, os que não são os primeiros homens, os dignos: “Chuva desabe sobre nós, a partir disso, poderei trocar minha BMW por uma mais nova, conhecer países que não visitei, e deixar um mini-império para a minha descendência…!”

Enquanto as acusações não forem apuradas, e julgados os responsáveis. Esperaremos para então afirmarmos: Não há calamidade mais dura em todos os destinos humanos do que quando os poderosos da terra não são ao mesmo tempo os primeiros homens. Ou então, Não confieis em príncipes, nem nos filhos dos homens em quem não há salvação.

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Tudo se destrói, tudo se reconstrói,

eternamente se edifica a mesma casa da existência.

Assim falou Zaratustra. F. Nietzsche

 

Os apelos para a reconstrução da cidade de Nova Friburgo são urgentes, emergenciais e provindos de todas as esferas: políticas, religiosas, turísticas, de anônimos a personalidades locais, todos se empenham em dizer com tom imperativo da necessidade de uma reconstrução. Mas como erguer uma cidade, cujos espíritos ainda se encontram combalidos? Como rogar um soerguer, enquanto os indivíduos envolvidos no processo, estão ainda absortos com todo o ocorrido? Os escombros, a lama, as rochas, a galhada e tantos restos que se entulham precisam de rápida remoção para lugares ermos, visto que estão aos nossos olhos, mas, e o que se encontra dentro de nós? Antes de reconstruir uma cidade, melhor é reconstruir o indivíduo alquebrado. Nunca uma cidade retorna, antes de tornado seu morador.

Não foi apenas a lama que tomou habitação no centro e arredores da cidade, foi no centro de nosso ser que tudo foi revirado; não foram tão somente as rochas que desceram como inimigas nossas, foi o peso que delas sentimos nos quatro cantos da nossa alma; não foi apenas a igrejinha invadida pela enxurrada, foi a espiritualidade confrontada diante de tamanha desdita; enquanto os hospitais eram assolados, a nossa saúde – em todos os aspectos – foi soterrada, e nos vimos sem força; não foram apenas os bens levados ou simplesmente destruídos aos nossos olhos, os sonhos realizados, tão custosos na amplitude da palavra, arrastados, amassados e enlameados foram; não foram apenas as vidas ceifadas, nós os que permacemos, também fomos junto deles, pois sentimos a falta de ar, a impotência diante das águas que arrastam, a escuridão da noite alternada pelos relâmpagos – nós gritamos com eles por socorro, e nos silenciamos com eles quando a morte chegou. Bem perto, longe demais, todos estávamos juntos na madrugada em que o céu debruçou-se sobre nós e mostrou-nos um outro oceano que não conhecíamos, um que fica atrás das nuvens.

O que se vê, em cada rua, bairro, casa … na cidade, não pode ser visto no íntimo de cada morador de Nova Friburgo, dentro do ser a destruição é ainda maior. Lá, no “interior do interior”, (pego emprestado de Vander Lee) não é como aqui. Aqui, diante dos olhos, se varre, se lava, se carrega de um lugar para o outro, as máquinas reviram, os caminhões despejam longe. Mas lá, lá dentro, lá na alma, o trabalho é outro, mais árduo, pesado, feito num tempo longuíssimo. A casa da existência precisa ser erguida antes de toda e qualquer casa, nas casas de alvenaria se vive, mas na da existência, se é. Se se não for reerguida a casa da existência antes de tudo, não bastará erguer um tijolo sequer, remover um entulho da calçada. De nada adiantará sem que o ser seja levantado definitivamente.

 

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Porque o terremoto fecha muitas fontes e causa a morte de muitos homens,

 mas ele traz à luz forças interiores e intimidades.

O tremor de terra revela novos mananciais.

Do cataclismo dos povos antigos surgem novas fontes.

 Assim falou Zaratustra. F. Nietzsche

 

“Ficar sem chão”, “perder o rumo”, “abrir um buraco embaixo de” … expressões que o ser humano utiliza para dizer sobre seus cataclismos. Modo de enfatizar o desterro, as calamidades, as dificuldades enfrentadas em determinados tempo. Para Nietzsche, tudo um modo revelacional de novas alegrias.

Os sulcos que são abertos na terra, quando se está arando, formam diminutos terremotos, em que coisas velhas são revolvidas e trazido à tona renovo nutricional ao que se deseja plantar. Dos pequeninos terremotos rurais, causados pelo agricultor, surgirão novas fontes de energia. Pelo incômodo causado à terra a satisfação de obter após uma jornada de espera, seus frutos.

A desestrutura causada em áreas atingidas por grandes tremores é visível. As cenas que ainda ecoam dos tremores ocorridos no Haiti, com pessoas vagando nas ruas e sem rumo não se apagaram da memória. As fontes naquela ocasião foram fechadas, e muitas mortes, muitas mortes anunciadas. E quando é assim, a história das pessoas é mitigada, seus nomes anulados e apenas números são ditos. Mas como nos lembra Nietzsche, interiores e intimidades foram trazidos à luz. De um lado a precariedade daquela sofrida comunidade e de outro, ajudas humanitárias que se destinaram até lá.

Ah! quantos são os tremores que o ser humano vive no seu íntimo… mas enxerguemos, além das fontes fechadas e mortes, o surgimento de forças nunca antes reconhecidas. Os terremotos são as decepções, as frustrações, os desafios que deslocam o ser de sua antiga acomodação existencial. Os tremores podem ser ainda, as crises, o desconforto, … a irremediável mudança que a vida impõe e que o ser humano não pode abster-se. Nada disso feito a partir de uma complacência, mas como terra revolvida, o ser de pois de deslocado, torna-se em demasia e é necessário muitos caminhões e maquinários para por tudo no lugar. As fontes que surgem são como recompensas pela bagunça causada pelos tremores. O fluir que vem de dentro, de lugares escusos, é surpresa que só terremotos podem oferecer. Um campo tranqüilo por demais, corre o risco de secar suas pastagens. Necessário será que terremotos façam jorrar fontes novas, que estavam lá embaixo, mas impossibilitadas de serem provadas.

Quando os tremores começarem a ocorrer, não pense neles, mas lembre-se que fontes novas estarão prestes a surgir!

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Sai da caverna. O mundo te aguarda-te como um jardim. O vento brinca com os fortes perfumes que querem vir ao teu encontro e todos os regatos gostariam de correr atrás de ti. Por ti suspiram todas as coisas, ao verem que ficaste sozinho durante sete dias. Sai da caverna! Todas as coisas querem ser teus médicos.” Assim falou Zaratustra. F. Nietzsche

 

Pensar em caverna omitindo o “Mito da caverna” de Platão é desconhecer o que pode ser gerado no interior das cavernas. Sou defensor delas, uso distintas cavernas em tempos diferentes e confesso, lá no interior de minhas cavernas me sinto bem. A realidade x ilusão, a verdade x quimera, temas avultados no decorrer do mito da caverna, é metáfora clara do ser e suas constantes romarias entre mundo externo e caverna.

Há dias de caverna e dias de sol no rosto. Defendo tanto uns como outros, pois ambos são necessários para o viver. As cavernas são diferentes dos poços profundos. Nelas há espaço e o que falta é apenas a luminosidade. É à noite, quando tudo se transforma numa gigantesca caverna, que os morcegos se aventuram fora dela, isto porque não há luz. Nos poços profundos há aperto, é sufocante, não se pode locomover-se. A caverna é o momento de tristeza, de insatisfação, é luto, melancolia, pálpebras pesadas sobre os olhos, … já os poços é o estágio de depressão, de entrega da vida, de desistência, … quem entra na caverna deseja apenas se esconder, quem pula no poço, deseja sumir. Na caverna há tempo de permanência. No poço não se sabe quanto tempo ficará.

As cavernas são essenciais à vida. Cada um tem a sua e através delas somos fortalecidos para os enfrentamentos diários. Caso as feridas sejam sérias, a caverna é um bom começo para melhoras, caso o medo tenha invadido o peito, a caverna é um bom lugar para encorajamento, … caverna é lugar de passagem e as lagartas sabem muito bem disso. Caverna é casulo. O poço é carapaça. As borboletas – resultado de quem passou pela caverna. As tartarugas, lesmas, os bichos vagarosos, … – resultado de quem escolheu o poço, esses carregarão o peso da escolha para sempre.

A caverna com suas aberturas transmite a liberdade de chegar e ir embora. E o que se vê a partir da caverna é convite para não permanecer, mas passar uma estadia, revigorar-se e voltar para fora.

Nietzsche vê remédios e médicos no lado externo. Eu vejo a cura que começa no primeiro dia na caverna e se estende na solidão dos outros seis dias. A cura se estende no imperativo do filósofo, “ Sai da caverna!” e se concretiza na certeza de que a vida que pulsa no exterior da caverna se volta para o ser recém surgido. A caverna é madre, ventre, que podemos voltar e nascer de novo. Jesus certa vez disse: “… é preciso nascer de novo…” uma caverna sempre está disposta a dar à luz novamente.

Ei! Que caverna é a tua?! Não fique mais do que sete dias…

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