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Archive for the ‘Guardiões da Beleza’ Category

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E VAI TER GENTE ACHANDO QUE É SOBRE UMA VIDA FITNESS…

Longe de mim querer que alguém permaneça infeliz, apenas por acreditar no permanecer. Longe de mim estabelecer uma ligação ingênua entre o jazer, continuar e a felicidade… só que existem celebrações que ocorrem apenas na teimosia. É na insistência calculada, na oportunidade renovada, no empacar dos de burro “brabo” – burro brabo é mais terrível que burro bravo – que a festa da conquista surge. E pode ser a conquista de algo como metas, alvos, tesouros diferentes do ouro. Pode ser a conquista de outros, de atitudes de outros, de gente escondida por causa de gente, valores que não precisam do $ para ser valorizado. E ainda pode ser a conquista de si mesmo, da mente esvaziada, escravizada e mecanizada, do espírito fugidio, arredio, empobrecido, do corpo esmaecido, largado, esquecido.

Cheguei à academia onde estou há quase 7 anos. Nenhuma busca estética, nada de mudança de hábito alimentar, nem sequer rompimento com sedentarismo,… um remédio antisstress, que como se sabe, traz em si os efeitos colaterais ditos anteriormente e que eu não buscava. Naquele dia, mais do que normal, eu estava muito cansado. De todos os tipos e em todas as partes eu estava fatigado. Pus os pés na academia às 7h35min como de costume e já estava resoluto de que às 7h40min sairia pela mesma porta que entrei. O bom dia das pessoas me soava estranho; os aparelhos mais pesados; o som, ligeiramente alto, não me despertou; nem o cheiro do café que surgia da sala do dono da academia me fez interessado em continuar ali… Foi que um simples papel, contendo novidades nele inseridas, que causou minha abrupta transformação. A minha professora disse com sorriso de carrasco nos olhos – todo profissional de educação física tem um sorriso assim – “Bom dia! Série nova! Aproveite!” Eu a ouvi dizendo: Lázaro, sai para fora! Ressuscitei quando em minhas mãos uma nova série foi entregue! Novos exercícios, novos grupamentos de músculos a serem trabalhados, novos posicionamentos, outras cargas… e até novas dores. Ir embora por quê? Um novo desafio acabava de chegar a mim, e precisava vencê-lo. Fiquei, permaneci e fui recompensado com um dos melhores treinos. Não porque a série nova era melhor que outra, também, mas porque fechei o plano de burlar a mim e com insistência sobrepujei a mim mesmo.

Não troque de casa, mude sua casa. Não troque de cidade, experimente passar por ruas diferentes. Não troque de restaurante, que tal voltar no dia e horário em que o salmão esteja mais fresco? Não troque de livro, mude sua leitura. Não troque de pessoas, mude a forma como se relaciona com elas. Não troque de cor, mude seu sorriso. Não troque de céu, espere as estrelas chegarem. Não troque de cônjuge, mude a si e mudará o outro pra você também. Não troque de mecânico, mude a maneira de guiar. Não troque de amigos, mude sua amizade. Não troque de tela, dê dois passos à frente, ou atrás, e tudo mudará. Não troque de pássaro, solte-o. Não troque de andar, experimente as escadas. Não troque de jardim, use a tesoura. Não troque de tom, desafinar é uma arte. Não troque de dieta, ame-se também! Não troque de caminho, chegue um pouco à sombra. Não troque de bom dia, ele um dia vencerá! Não troque de lugar, passe um repelente. Não troque de praia, espere a próxima onda.

Não troque de Jesus, mude seu coração. Não troque de academia, mude sua série.

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Riu-se, pois, Sara no seu íntimo, dizendo consigo mesma:

Depois de velha, e velho também o meu senhor, terei ainda prazer?.

Gênesis 18.12

Será que os adolescentes, os jovens, os adultos mais novos e os que se aproximam da terceira idade ainda não perceberam que a alegria não respeita os idosos? Sim, a alegria nem mesmo ouviu falar de estatuto dos idosos, ou de expressões que agora cabem melhor para se referir aos idosos. Ela não está preocupada no que os idosos vão pensar e por isso continua ultrapassando os limites do politicamente correto, e alcançando os “velhos e velhas” que se fazem vulneráveis por aí.

Sara, assim como a nossa juventude, não sabia disso. Por isso, achou graça, quando os céus representados por um distinto grupo diplomático, visitou sua casa e comunicou a ela e seu esposo mensagem celestial, a saber, que ambos iriam ter um filho na terceira idade. Ele riu bem nas entranhas e se perguntou, como terei ainda prazer? Ah, se a Sara morasse um pouquinho mais perto da Adélia! Mas foram vizinhas distanciadas pelo tempo… A Adélia Prado, minha geriatra favorita, teria dito à sua vizinha distante:

Eu sempre sonho que uma coisa gera,

Nunca nada está morto.

O que não parece vivo, aduba.

O que parece estático, espera.

Creio que a pergunta de Sara, no coração dos mais jovens, se transmuta e se torna a seguinte indagação: Há prazer na velhice? Como alguns conseguem na velhice sorrir? Na terceira idade ainda há condições de ser alegre? Será que conseguirei ser um idoso que vive a realidade da alegria?

Apesar de algumas realidades tão estampadas às vistas dos jovens, há a insistência em ver as que não traduzem a verdade da terceira idade. A estética estereotipada por uma geração sempre será vencida pelo tempo. A pele esticada, a musculatura rija e torneada, o abdômen negativado, o look ousado e extravagante, … com o tempo, tudo isso deixará ou se tornará menos importante, ou menos central na vida. Outro geriatra, categorizado assim de imediato, o poeta TS Eliott, aguça essa mania de vislumbrar o que não fundamenta a alegria do ser em idades avançadas, ele diz:

E eles dirão: ‘Seu cabelo, como está ralo!’

Meu casaco distinto, meu colarinho impecável,

Minha gravata elegante e discreta,

confirmada por um alfinete solitário –

Mas eles dirão: ‘Seus braços e pernas,

que finos que estão!’

Os olhos de Sara, os seus, os meus, nem sempre compreendem que é necessário ver como a alegria enxerga os idosos. Passarei daqui por diante a me expressar como a alegria faz, sem escrúpulo algum com os idosos.

A alegria não quer saber se o velho decidiu aposentar-se – a palavra aposentar já sugere uma vida nos aposentos. Ela abre a porta da casa, ruma aos aposentos e diz: Hei velhino! (aqui é preciso ler com a voz do Pernalonga). Não há em seu vocabulário Terceira idade, pois ela não observa idade para se ramificar na vida de alguém! Poderia ser até Metusalém com sua 5ª ou 6ª idade – a alegria não se importa com isso! Há graça, riso, disponível até quando os céus estão sisudos para comunicar algo importante e sério! Sara não debochou dos céus, ela riu! Algo que deveria ser comum entre os velhos e algo que os jovens deveriam saber que é mais do que possível! O riso que assaltou as entranhas de Sara, é o mesmo que duela com a gente – basta alguém falar: “ Não pode rir aqui!” “Agora fica quietinho. Não pode rir!” Que vontade de gargalhar quando se ouve isso!

Tem gente que insiste quando se chega à terceira idade: “Agora não pode mais rir!”

Creio que foi essa vontade descontrolada que assaltou Sara quando recebeu a mensagem celestial! Creio que essa vontade deve permanecer para sempre, para quando chegar a última mensagem celestial, nos despedir sorrindo. Por quê?! Ah! Você já sabe! Quando não se pode rir…

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Se me perguntassem agora da alegria da vida,

Eu só tinha lembrança de uma flor miudinha.

Adélia Prado 

Meu filho de dez anos chegou próximo e perguntou se poderia levar para o colégio um livro do Millôr Fernandes, e abrindo num haikai disse: “Estamos estudando sobre haikais, pensei em levar e …” novamente a magia aconteceu, eu me refiro ao encontro dos belos. Antes tinha havido uma espécie de eucaristia cromática, entre minha filha e Claude Monet, e, agora, outros tão belos como aqueles dão as mãos. Emily Dickinson novamente repousou em minha memória: “A ausência da feiticeira /Não invalida o encantamento.” Mesmo sem Millôr o mundo continua provando dos seus encantamentos, e diante de meu filho, Millôr e um haikai, fomos levados para um curto e belo caminho encantado. Era a magia de Millôr entre nós.

Não era permitido mais que três passos, era como se estivéssemos diante dos três pedidos e a lanterna mágica, porém, não havia limite para que os sentimentos estivessem entre nós. Saudade, amor, dores, tristezas, alegrias profusas, … todos ou qualquer um deles em apenas três passos. Millôr, tranquilo como um jardim oriental, ensaiava seus passos, já tinha feito este percurso por várias vezes. Confesso que eu tremulava, mas tinha de fingir toda calma àquele que entre nós começava seus primeiros passos. Lembrei de um haikai antigo, teológico, que todos conhecem:

Em nome do Pai,

Do Filho,

Do Espírito Santo.” Eles sorriram e disseram: Amém!

Havia uma decisão entre nós. Começaríamos por debaixo das saias da cerejeira e findaríamos o percurso de três passos junto ao lago das carpas vermelhas. Em cada pedra um passo, e assim atingiríamos o santo lugar.

Millôr se mostrara seguro, inspirado, num breve sorriso que saía pelo canto dos lábios para fazer o percurso, meu filho tocava com os pés as pedras e refugava como mão em pratos quentes, e eu, me fazendo de pássaros mergulhadores, os que habitam a volta dos lagos, observava-os, paralisado pela beleza do encontro. Como ninguém se libertava à sombra da dama de rosas, decidimos esperar, sim esperar até que todos possam um dia dar três passos rumo ao lago colorido. Quando meu filho estiver pronto, iremos. Eu já sei que passos darei, os três.

 

Meu filho – sorriso e beijo fartos

Ex-Milton entre nós

Um pai rico.

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Não importa que a tenham demolido:

A gente continua morando na velha casa em que nasceu.

Mário Quintana

Há dias venho procurando um tema para o post de nº 100, do Blog “ A CEIA”. RIO+20? Não. Ninguém deu atenção. Futebol?Copa do Mundo? Estou cansado disso. Então… um Grupo me trouxe sensações, descortinou olhares, me trouxe para fora, como numa mais singela ressurreição… não consegui sufocar o meu grito. O post 100, é de vocês! Sei lá, nosso! É de quem é cordeirense, ou se tornou, por uma encantamento digno das pequenas cidades.

Minha velha casa? Minha velha cidade. Minha cidade pequena. Meus conhecidos.

É assim, característica exclusiva de pequenas cidades, pois assim se diz: Todos conhecem todos. Pensava qual era a importância disso, até passar alguns poucos minutos ante o Grupo de uma rede social chamado “EU SOU CORDEIRENSE”. Agora sei qual a importância disso. Amenizar a dilacerante saudade de tempos e pessoas – não necessariamente nessa ordem – imposta por uma vida distante, apressada, … resultante de escolhas (nada arrependidas) que nos levam para mais e mais longe. Conhecer todos numa pequena cidade trata os que estão longe, absorvidos no anonimato de médias e grandes cidades de nosso país. E conhecer os apelidos – nome é coisa de centros urbanos, apelidos é coisa de cidade pequena – é a maior constatação de que você faz parte da cidade. Sim da pequena cidade. Falar quando se deixa a casa: “Vou à rua!” è marca nossa também – uma singela referência ao centro urbano da pequena cidade.

Não importa se nós mesmos temos feito de tudo para acabar, demolir com a tal casa nossa, pequena, onde todos se conhecem. Bravamente temos permanecido nela. Pasmados, pois o aliado de hoje, é a comunicação hipermoderna, a comunicação virtual, a rede social. Mas de nada adiantaria, se não tivéssemos vivido. A casa não seria tão agradável e digna de ser mantida se a praça – local preferido das pequenas cidades – não tivesse sido o nosso local para uma comunicação real e pessoal. Não teríamos tantas imagens para curar a saudade.

Confesso, sou um cordeirense fajuto. Desci, entrei na casa, e tão logo a deixei. Um filho pródigo da cidade exposição. Um que sente falta de tão somente dizer: “Não tem nada em Cordeiro hoje”, mesmo tendo tudo, o quê? O ser conhecido de todos e saber que se conhece a todos também. Por que? Longe de controle social de pequenas cidades, porque isso cura de saudade. Como diz a minha preferida, a Adélia Prado: “Meu Deus,/ me dá cinco anos./(…)me cura de ser grande,/(…)” Ser grande adoece o cidadão de saudade. E quando o cidadão é proveniente de uma pequena cidade…

Ei, você! Que seus filhos vivam, para que na distância da vida possam ser curados da saudade que os abaterá num futuro.

Vivam filhos diletos! No futuro sei que se reunirão ainda que distantes. Mesmo que a praça seja bem diferente, feita de telas e mouses e net’s também.

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Se me perguntassem agora da alegria da vida,

Eu só tinha lembrança de uma flor miudinha.

Adélia Prado

Ah! A beleza das coisas frágeis… Assim foi a visita que fiz à Casa Ronald McDonald, na tarde de 21 de março de 2012, quarta-feira. O controle na entrada, com segurança, portaria, e todo domínio de quem entra e sai, com câmeras espalhadas pelos setores, me fez ter a certeza de que estava no lugar certo, afinal, crianças possuem um valor imensurável, e toda segurança contida no local é correspondente aos valores infantis contidos na Casa. Não fosse o outdoor magnânimo marcando a fachada da Casa, eu diria que tinha acabado de entrar no mundo dos sorrisos, e por tantos que recebi, no breve percurso da portaria ao hall de entrada, passei a concedê-los sem porquês. Como é bom voltar a sorrir sem porquês, lá, no mundo dos sorrisos, isso é possível. Ao nos apresentar, afinal de contas, eu acompanhava o blog “A Ceia” em sua visitação à Casa, como “Blogueiro Responsável” – nova festa, e sorrisos ainda mais abertos e mais familiares surgiram. A Sra. Edyr, cicerone de nosso tour pela Casa, numa amabilidade impossível de ser escondida, e com aval histórico de quem milita pela Casa desde sua fundação, foi quem primeiro nos abraçou, junto à árvore do amor, e não há melhor recepção do que tal árvore que saúda a todos os que chegam. Mui silenciosamente ela clama aos que por ela passam:“Importa amar!” – assim sussurra a sábia árvore. Logo a nossa guia fez questão de comunicar a Pres. Sônia, que estávamos no local, e outra vez o abraço se estendeu, as portas se abriram e vimos no brioso olhar daquela senhora, o amor que há anos vem sendo consolo, conforto, abrigo e combustível de abnegada missão. Logo depois de celebrado o abraço – vi na casa que o rito se faz por um aperto de mão, um sorriso amigável e abraços a tudo o que faz parte da Casa – a Sra. Sônia fez chamar Henrique Schmitz, o idealizador e mobilizador dos divulgadores on-line, conhecidos por blogueiros. Um jovem inteligente que se uniu a uma causa maior, renunciando a pequenez comum de tantos em dedicarem-se a si mesmos. Mais uma vez, … festa, sorrisos, prazer compartilhado e pela primeira vez, uma aparição real do virtual “A Ceia”. Foi bom saber, que fomos os primeiros a visitar a Casa, do grupo de blogueiros parceiro do Instituto, isto dito pelo amigo Henrique.

Quanto ao tour, fizemos parte da etapa pelos olhos da Sra. Edyr, outra, através dos olhos de Henrique, e assim vimos um grupo de pessoas que enfrentam um dos maiores fantasmas da humanidade com divinais atitudes e sentimentos. Doações, colaboradores, incentivadores, voluntários, profissionais, … em cada canto da Casa há um traço feito por alguém, alguma outra instituição, algum grupo organizado, enfim, há marcas de quem resolveu abraçar aquela Casa. Comprometidos no cuidado integral daqueles que passam a morar na Casa, vê-se salas temáticas com objetivos pedagógicos, psicológicos, lúdicos, de entretenimento, … Além disso, a Casa está cada vez mais focada nos aspectos de sustentabilidade do ambiente. Com fontes de energia captadas pelo raio solar, cartões magnéticos que impedem o gasto excessivo de energia nos quartos e demais áreas da Casa, e outras atitudes assertivas que beneficiam um todo, percebe-se o cuidado com o que se é arrecadado e com o futuro de nosso planeta. Ao abrir a biblioteca, um pré-adolescente, ex-paciente da Casa, cuja mãe agora está envolvida com o local, junto de uma professora. Ele debruçado no Livro dos Recordes/2008, absorto pela força das pálpebras de um homem capaz de mover toneladas por elas, e eu contemplativo pelo seu recorde, afastar o fantasma do câncer, viver uma vida de alegria e pensar em bater outros recordes. Um eu já posso premiá-lo, a marca alcançada por viver com alegria desconcertante.

A Casa que o amor abraçou, abraça-nos também. Agradeço a Sra. Sônia, ao irmão Henrique e a carinhosa Sra. Edyr, pelo abraço dados a nós. O “A Ceia” tem o prazer de fazer tão honrosa e nobre parceria e dedica seus préstimos ao crescimento da Casa Ronald McDonald. O mundo dos sorrisos, que mora ali, no Rio, tem de ser mais conhecido, visitado e auxiliado. Mais abraços precisam ser direcionados para a Casa que o amor construiu, eu convido você a fazer parte de uma história que não tem fim. Até breve!

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(início no post anterior “Adeus Anjo Triste” parte I) Eles se dariam muito bem. Eu sugeriria que brincassem de caçar tanajura; de correr os rios rasos a pés descalços. Diria para se assentarem à porta da venda, apenas para assistirem à movimentação. Diria para desfazerem a horta e em seu lugar construírem um campinho de futebol.  E depois de muito futebol, falaria para que destruíssem o campinho e refizessem a horta. Disso eles nunca se esqueceriam…

Então …

Os meus anjos não são anjos da guarda. Essa expressão “da guarda” me reporta à guarda pretoriana, ou romana… Não, meus anjos são muito leves para vestimentas tão brutais. Lembro-me ainda de guarda-roupas, guarda-sol ou chuva, dependendo do dia, e de tantos outros guardas, como cão de guarda, guardanapos … que se constroem de acordo com a utilidade, à medida que se precisa deles. Os “guardas” só possuem sentido na utilidade. E o que é útil pode ser transformado em inútil. As coisas são úteis. Os meus anjos são anjos e não coisas (úteis/inúteis). Neles não se harmoniza a estupefata mentalidade de utilidade.

Os meus anjos se parecem muito comigo. Se parecem com os seres humanos. Eis o segredo de não serem achados. É que seus traços físicos são como de qualquer mortal. Passam por nós e não percebemos. Olha em nossa direção e não notamos. Bem próximo ao que “City of Angels” retratou nas telas. A médica e o andarilho: ambos humanos e anjos. Ninguém sabe ao certo quem é quem. Se me perguntasse: qual o outro título que poderia ser dado a este filme? Eu responderia: “A médica e o andarilho: anjos”. Subtítulo: “A vida por olhos angelicais”.

É através do corpo humano que os meus anjos se disfarçam. Fora feito há muito tempo e serve na medida para eles. É sempre o mesmo para todos e nunca sai de moda. Depende apenas do tamanho, da cor e da preferência de cada anjo. Se Sófocles visse os meus anjos… afirmaria outra vez: “Inúmeras são as maravilhas do mundo, mas nenhuma, nenhuma é mais incrível que o corpo do homem.

Creio que essa coisa de ter seus próprios anjos é um legado familiar. Meu pai também confessa ter os seus anjos. Quando éramos crianças ele dizia pra um e pra outro: “…vem cá meu anjo!” E assim, se tornava céu o encontro entre pai e filhos. Nós ainda não crescemos para ele, e nunca cresceremos. Que bom! O céu tem de continuar.

Na companhia desses anjos eu sinto paz.

Conheci um anjo. Foi por foto. Uma única fotografia. Ele já tinha partido quando vi suas feições. Sentiram muita falta dele nos céus e ele teve de ir embora, voltar. O anjo ficou triste quando recebeu a notícia de seu regresso. Tinha vivido aqui pouco tempo: aproximadamente dezoito anos e logo deveria partir.

Este anjo era daqueles que faziam parte dos “meus anjos” e eu mesmo não sabia. E a exemplo dos meus anjos, este tinha se encantado com a terra e suas belezas: não queria mais voltar… quando um anjo se encanta com a terra, toda a terra fica encantada com ele. É sempre assim e com esse anjo não foi diferente.

Assim que chegou, tomou o disfarce de uma menina. Recém-nascida, aqueles que foram encarregados de cuidá-la lhe batizaram com o nome de Renata: do latim Renatus, nascida novamente, renascida. E foi exatamente isso que aconteceu ao anjo: in Renata ele veio a nascer de novo, agora, na terra e para a terra, e respondendo ao anseio angelical, a terra nasceu para ele também (perdoe-me a confusão de masculino e feminino – isto é coisa de anjo).

Renata, um lindo anjo que embelezou a vida na terra.

Lá no céu eram todos iguais. As suas belezas desconcertantes não causavam encantamento algum. Uma floresta formada apenas de quaresmeiras, por mais belo que seja, não pode ser comparado à beleza de uma solitária quaresmeira, reinante, tendo à sua volta as demais árvores da floresta, todas harmoniosamente verdes.

E Renata era uma quaresmeira entre nós.

As fotografias trazem além das imagens, histórias. E depois de ouvir um pouco sobre a história de Renata, principalmente os últimos dias da quaresmeira na floresta, fui levado a habitar no mais próximo das palavras de Emily Dickinson, que enxergou a Terra, em sua imensidão e mover “vagaroso”, como um ninho…

            “O que é de fato a Terra senão um ninho

de cuja beirada estamos todos caindo?”

Quando adolescente, em fins de outubro, fiquei a observar a construção de um ninho de coleiros (coleirinha, papa capim…) na Casuarina que havia no quintal. Cuidadosamente, tanto o macho como a fêmea, iam tecendo nos arriscados galhos da Casuarina a futura residência. Tudo ficou pronto. De maneira como aprenderam da silenciosa sabedoria da natureza. Os ovos surgiram depois, a fêmea se enclausurou para a vinda dos filhotes e após alguns dias, já em novembro, havia certa movimentação no ninho, resultado da aparição de três filhotes recém nascidos.

O ninho: um mundo.

Pude através da agitação do ninho, alcançar a agitação da existência, do indivíduo, da vida. Pude pelas tempestades arrasadoras de novembro, alcançar a dimensão do que seria “cair do ninho” pelas palavras de Emily Dickinson.

Os galhos da Casuarina foram sacudidos e do ninho bem firme aos galhos, os filhotes vieram ao chão… o desespero do casal de pássaros, após despedida das nuvens, possibilitaram-me encontrar os filhotes caídos do ninho. Ainda muito pequenos, recolhi-os um a um, coloquei-os numa caixa de sapatos, envolvi-os a um monte de retalhos grossos e sobre os “piu-pius” acendi um sol: o abajur.

Renata caiu do ninho. Na sua juventude, ela poderia dizer palavras como as de Quintana…

                “Eu estava dormindo e me acordaram

E me encontrei, assim, num mundo estranho e louco…

E quando eu começava a compreendê-lo

Um pouco,

Já eram horas de dormir de novo! ”

Quando somos despertados no ninho, quando nos despertamos para o ninho, pouco de nós o ninho obtém. Logo somos chamados para fora. E cair do ninho, lançar-se, alçar vôo… é sempre um adeus.

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Um texto antigo da obra “Vestido ao Vento”, trazido à tona por causa de mais uma apresentação do filme “City of Angels”.

“O Brasil é uma

república federativa

cheia de árvores

e gente dizendo adeus”

Oswald de Andrade

Meu filho começou a descrever o aspecto físico do que ele considerava ser um anjo. Asas brancas – anjo de respeito precisa ter asas; cabelos louros, encaracolados; auréola de ouro – que persegue a sua cabeça aonde ele vai; e alegria, um sorriso que abarca o mundo e seus habitantes…

Eu também pensava como meu filho: tinha uma mentalidade européia, germânica, quase ariana, acerca dos anjos – e por se aproximarem por demais dos anjos de Hitler, temia eu, os meus próprios anjos. Sei que meu filho foi influenciado, assim como eu, por revistas infantis que traçam o aspecto angelical ainda de maneira medieval. Sei ainda, que um dia os anjos serão mais pessoais para ele.

Anjos são como nuvens. Ao ver uma mesma nuvem, cada um possui a sua própria imagem dela.

A imagem que tenho de anjos é minha, por isso os anjos se tornam: meus.

Então digo: os meus anjos…

Os meus anjos possuem asas, mas elas são invisíveis. Eles voam, mas preferem caminhar. Não há neles um padrão – todos são belos à maneira deles. Uns contam histórias, outros escrevem poesias. Existem aqueles que lidam com as cores e as prende em telas. Outros dão cor à vida através de músicas, e ainda há aqueles que vivem numa divina contemplação de tudo que fora criado pelo Criador (ato que o ser humano se divorciou). Importantes são estes anjos contempladores. Diante de tantas belezas que há no mundo, nenhuma delas pode ser ignorada. São anjos guardiões da beleza. E se protege a beleza contemplando-a.

Anjos … e ainda há outros.

Os meus anjos não são de outro mundo. Caso fossem, seriam extra-terrestres. Os meus anjos são intra-terrestres. Eles são de casa. Abrem a porta da geladeira e se servem sozinhos. Possuem cópia das chaves da casa. Não perdem um capítulo da novela em nossa companhia. Eles são da família! Ganharam status de seres humanos, o que é diferente de dizer que perderam status de divindade. Eles com isso, estão muito próximos do menino Jesus de Alberto Caeiro, em “O Guardador de Rebanhos”, quando ao falar dele, nos diz…

Hoje vive na minha aldeia comigo.

É uma criança bonita de riso e natural.

Limpa o nariz ao braço direito,

Chapinha nas poças de água,

Colhe flores e gosta delas e esquece-as,

Atira pedra aos burros,

Rouba as frutas dos pomares

E foge a chorar e a gritar dos cães.

(…)”

Os meus anjos intra-terrestres poderiam brincar até a noitinha com o menino Jesus de Alberto Caeiro. (continua na parte II)

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