Feeds:
Posts
Comentários

Se me perguntassem agora da alegria da vida,

Eu só tinha lembrança de uma flor miudinha.

Adélia Prado

Ah! A beleza das coisas frágeis… Assim foi a visita que fiz à Casa Ronald McDonald, na tarde de 21 de março de 2012, quarta-feira. O controle na entrada, com segurança, portaria, e todo domínio de quem entra e sai, com câmeras espalhadas pelos setores, me fez ter a certeza de que estava no lugar certo, afinal, crianças possuem um valor imensurável, e toda segurança contida no local é correspondente aos valores infantis contidos na Casa. Não fosse o outdoor magnânimo marcando a fachada da Casa, eu diria que tinha acabado de entrar no mundo dos sorrisos, e por tantos que recebi, no breve percurso da portaria ao hall de entrada, passei a concedê-los sem porquês. Como é bom voltar a sorrir sem porquês, lá, no mundo dos sorrisos, isso é possível. Ao nos apresentar, afinal de contas, eu acompanhava o blog “A Ceia” em sua visitação à Casa, como “Blogueiro Responsável” – nova festa, e sorrisos ainda mais abertos e mais familiares surgiram. A Sra. Edyr, cicerone de nosso tour pela Casa, numa amabilidade impossível de ser escondida, e com aval histórico de quem milita pela Casa desde sua fundação, foi quem primeiro nos abraçou, junto à árvore do amor, e não há melhor recepção do que tal árvore que saúda a todos os que chegam. Mui silenciosamente ela clama aos que por ela passam:“Importa amar!” – assim sussurra a sábia árvore. Logo a nossa guia fez questão de comunicar a Pres. Sônia, que estávamos no local, e outra vez o abraço se estendeu, as portas se abriram e vimos no brioso olhar daquela senhora, o amor que há anos vem sendo consolo, conforto, abrigo e combustível de abnegada missão. Logo depois de celebrado o abraço – vi na casa que o rito se faz por um aperto de mão, um sorriso amigável e abraços a tudo o que faz parte da Casa – a Sra. Sônia fez chamar Henrique Schmitz, o idealizador e mobilizador dos divulgadores on-line, conhecidos por blogueiros. Um jovem inteligente que se uniu a uma causa maior, renunciando a pequenez comum de tantos em dedicarem-se a si mesmos. Mais uma vez, … festa, sorrisos, prazer compartilhado e pela primeira vez, uma aparição real do virtual “A Ceia”. Foi bom saber, que fomos os primeiros a visitar a Casa, do grupo de blogueiros parceiro do Instituto, isto dito pelo amigo Henrique.

Quanto ao tour, fizemos parte da etapa pelos olhos da Sra. Edyr, outra, através dos olhos de Henrique, e assim vimos um grupo de pessoas que enfrentam um dos maiores fantasmas da humanidade com divinais atitudes e sentimentos. Doações, colaboradores, incentivadores, voluntários, profissionais, … em cada canto da Casa há um traço feito por alguém, alguma outra instituição, algum grupo organizado, enfim, há marcas de quem resolveu abraçar aquela Casa. Comprometidos no cuidado integral daqueles que passam a morar na Casa, vê-se salas temáticas com objetivos pedagógicos, psicológicos, lúdicos, de entretenimento, … Além disso, a Casa está cada vez mais focada nos aspectos de sustentabilidade do ambiente. Com fontes de energia captadas pelo raio solar, cartões magnéticos que impedem o gasto excessivo de energia nos quartos e demais áreas da Casa, e outras atitudes assertivas que beneficiam um todo, percebe-se o cuidado com o que se é arrecadado e com o futuro de nosso planeta. Ao abrir a biblioteca, um pré-adolescente, ex-paciente da Casa, cuja mãe agora está envolvida com o local, junto de uma professora. Ele debruçado no Livro dos Recordes/2008, absorto pela força das pálpebras de um homem capaz de mover toneladas por elas, e eu contemplativo pelo seu recorde, afastar o fantasma do câncer, viver uma vida de alegria e pensar em bater outros recordes. Um eu já posso premiá-lo, a marca alcançada por viver com alegria desconcertante.

A Casa que o amor abraçou, abraça-nos também. Agradeço a Sra. Sônia, ao irmão Henrique e a carinhosa Sra. Edyr, pelo abraço dados a nós. O “A Ceia” tem o prazer de fazer tão honrosa e nobre parceria e dedica seus préstimos ao crescimento da Casa Ronald McDonald. O mundo dos sorrisos, que mora ali, no Rio, tem de ser mais conhecido, visitado e auxiliado. Mais abraços precisam ser direcionados para a Casa que o amor construiu, eu convido você a fazer parte de uma história que não tem fim. Até breve!

“(…) Escrevi cartas,

Remeti pelo correio a copa de uma árvore,

Pardais comendo no pé um mamão maduro

- coisas que não dou a qualquer pessoa –

e mais que tudo, taquicardias,

um jeito de pensar com a boca fechada,

os olhos tramando um gosto.

(…)” Adélia Prado

Querida Adélia,

Gostaria de escrever cartas próximas as tuas, remetendo-lhe imagens que celebram conquistas, amores e paz. Todavia, ainda não me foi permitido tamanha festa. Acontece que estamos nos aproximando ao dia 8 de março, e a história de sempre me causa tristeza. Mulher, Adélia, não pode ser lembrada apenas nas festividades do Dia Internacional da Mulher, a propósito, hoje não vejo o que festejar. Minha inquietação se dá por ter assistido uma reportagem que fazia da beleza feminina uma verdadeira maldição, a causa de tantas belas mulheres terem sido seqüestradas e mortas nos últimos tempos. Adélia, eu pensei em você naquele instante e perguntei: o que a Adélia diria sobre isso? Penso que a beleza nunca será criminosa, mas o que se faz dela. Adélia, a culpa não está no encantamento que a beleza feminina causa no mundo, mas nos sociopatas, na morosidade de um governo conivente por sua omissão, no fingimento político e social da importância feminina nos dias atuais… Adélia, eu nunca condenaria alguém por ser belo. Condená-lo é condenar a existência da beleza, que fora espargida nos quatro cantos do universo, sem reservas, sem economia. O problema Adélia, está no que se faz com a beleza feminina. A mulher foi transformada em objeto. Por isso, pode ser adquirida, nas revistas masculinas, em filmes destinados a fins hedonistas, na prostituição a preços baixos ou para executivos, a altíssimas cifras, em sites que permitem tais fins de maneira virtual, enfim, a mulher foi exposta numa prateleira social e para os sociopatas, não há distinção: todas fazem parte do processo real de coisificação da mulher, o fato de ser mulher, basta para os psicopatas enxergarem como objeto a ser obtido. Adélia, pasme você, as belas vitimas, foram mulheres inteligentes e bem situadas socialmente, independentes e que regiam áurea de conquistadoras para o universo feminino, e mesmo assim, os seus algozes não diferenciaram a mulher, da mulher, ou seja, a que é objeto, e a que se manteve gente, pessoa, ser humano. Sabe, Adélia, somos culpados. E a culpa recai sobre nós, quando aprovamos o desfile que celebridades fazem ao trocarem sucessivamente de pares, como se fossem simplesmente coisas; quando insensíveis permitimos que danças, sem nenhuma raiz folclórica, torne brincadeira de nossas crianças, numa educação de inversão de valores, em que desde a tenra idade o menino vê a menina como um objeto a ser conquistado mais tarde, depois dos bonecos, jogos e a bola de futebol; quando incitamos que os filhos sejam colecionadores de meninas; quando fomentamos que o papel feminino se localiza em ser útil ao macho, e o que é útil, ou inútil, senão o objeto Adélia? Cada vez que ritualizamos a passagem da mulher de ser humano para coisa, objeto, autorizamos aos psicopatas a realizarem seus funestos planos, com as damas da pós-modernidade. Algumas caíram no engano, quando a elas foi oferecido a liberdade. Adélia, liberdade não está em fazer o que se quer até tornar-se objeto e ficar agrilhoado nas mãos de outrem. Liberdade hoje, está em ser gente, humano, em se desvencilhar do processo de coisificação e ser, apenas ser…livre.

Adélia, não quero cair como muitos em dizer: “Hoje temos uma presidenta, as coisas mudarão para as mulheres”. Penso ser isso um machismo ultrapassado e um desrespeito às mulheres. O cargo maior do Brasil não deve ter sexo, cor, religião e se não fosse o caso, nem mesmo partido político, mas… A questão minha cara, está em nossas mãos, pensamentos e reflexões, para ações preventivas e formadoras, coisa de base, de quem muda sorrateiramente, porém, definitivamente. Lá em cima, eles continuam lidando com o atraso político, são atitudes que agem contra o mau resultado, cada vez maior, o que impedem de uma mudança advinda das causas. Adélia, qual será o tema que avultará as manchetes dos jornais nos primeiros dias de março?

Aguardo notícias,

Saudades, Eu.

 

Por causa dele falo palavras como lanças.” Adélia Prado

Reconheço que há exceções no regramento. Todavia, a diminuta parcela representada em “As Brasileiras” não remonta o habitual contexto vivido pelas mulheres brasileiras arraigadas no país ou derramadas nos quatro cantos do mundo.

A Rede Globo de Televisão – quero deixar claro que não sou daqueles anti-globais, mas não sou o típico idiotizado pelos meios de comunicação – estréia em sua programação uma série em que a partir de seu título, enredo, trama e propósitos deseja ser o porta voz da mulher brasileira, aquele que reflete a mulher como ela é; o que descortina todo o mundo feminino do contexto tupiniquim. Traduzindo, uma leitura hipermoderna e de mau gosto do que deve ser a mulher brasileira. Até Nelson Rodrigues  se envergonharia da gigantesca força que se faz para acreditarmos que a mulher brasileira está em patamares tão diminutos.

Não é de hoje que a mídia declara verdadeira ojeriza às mulheres, com mobilizações de diversos tipos e em diversas áreas. Não são poucas as atitudes para coisificar a mulher, torná-la puramente objeto, trancafiá-la num mundo imagético, defraudá-la na capacidade de refletir, pensar, opinar e direcionar seus passos com liberdade, sem que seja preciso libertinagem. O local conhecido como “casa da luz vermelha”, “casa de tolerância”, “bordel” ou simplesmente, “zona”, possui abrangência muito maior nos dias de hoje. E a manutenção de certos locais, hoje, se faz pela manutenção de certos pensamentos. O que antes era admitido para a iniciação sexual de jovens e desfrute de prazer sem culpa dos demais, hoje se dá para a manutenção de mulheres nas prateleiras do ideal masculino deteriorado. A antiga “casa de tolerância” se tornou em tolerância de toda a casa. E então se tolera uma imagem deturpada da mulher brasileira em rede nacional.

As brasileiras que conheço e ouço falar, lutam por seus filhos, casamento e casa. Organizam-se pra que direitos lhes sejam dados. Investem em sua carreira, através de estudos, cursos, trabalho abnegado. Com seus esposos, ou ainda, destituídas deles, confrontam a lógica e desafiam os legalistas, cuidando, em sua maioria, de seus filhos de maneira exemplar. Tomam nas madrugadas do dia, conduções apinhadas de gentes, e por horas suportam todo o tipo de abuso – desde a insensibilidade governamental aos desaforos de homens animalizados – para tão somente iniciar a lida em busca de sobreviver. As brasileiras que conheço, rezam, oram, … elas crêem. Lançadas no descaso, mostram por vezes, o corpo combalido por homens violentos, como numa profecia viva e denunciante de um mundo permissivo à injustiça. De maneira primorosa, exemplificam a verdadeira vontade pela vida. Não são poucas que se postam nos hospitais cuidando de filhos, do lado de cá e de lá das prisões, mantendo a esperança de que um dia tudo será diferente. As brasileiras pensam em sexo. Mas não pelo prisma do homem. Essa coisa de sexo sem amor, apenas os homens e os cachorros reconhecem.

Não! A série “As Brasileiras” definitivamente não representa as brasileiras no todo. Não! Definitivamente, a exceção, caso esteja representada aqui, não coaduna com tantas e tantas brasileiras de nossa nação.

O país da presidenta, é ainda o país da mulher honrada, livre, feliz, desafiada, crente, culta, amorosa, piedosa, aguerrida, persistente, bela, digna, … mas passível de tanto parodoxo social.

Resta-lhes não permitir que sejam representadas por pequenos exemplos que não verbalizam o todo. As brasileiras, eu sei quem são. E vejo no que querem torná-las.

(início no post anterior “Adeus Anjo Triste” parte I) Eles se dariam muito bem. Eu sugeriria que brincassem de caçar tanajura; de correr os rios rasos a pés descalços. Diria para se assentarem à porta da venda, apenas para assistirem à movimentação. Diria para desfazerem a horta e em seu lugar construírem um campinho de futebol.  E depois de muito futebol, falaria para que destruíssem o campinho e refizessem a horta. Disso eles nunca se esqueceriam…

Então …

Os meus anjos não são anjos da guarda. Essa expressão “da guarda” me reporta à guarda pretoriana, ou romana… Não, meus anjos são muito leves para vestimentas tão brutais. Lembro-me ainda de guarda-roupas, guarda-sol ou chuva, dependendo do dia, e de tantos outros guardas, como cão de guarda, guardanapos … que se constroem de acordo com a utilidade, à medida que se precisa deles. Os “guardas” só possuem sentido na utilidade. E o que é útil pode ser transformado em inútil. As coisas são úteis. Os meus anjos são anjos e não coisas (úteis/inúteis). Neles não se harmoniza a estupefata mentalidade de utilidade.

Os meus anjos se parecem muito comigo. Se parecem com os seres humanos. Eis o segredo de não serem achados. É que seus traços físicos são como de qualquer mortal. Passam por nós e não percebemos. Olha em nossa direção e não notamos. Bem próximo ao que “City of Angels” retratou nas telas. A médica e o andarilho: ambos humanos e anjos. Ninguém sabe ao certo quem é quem. Se me perguntasse: qual o outro título que poderia ser dado a este filme? Eu responderia: “A médica e o andarilho: anjos”. Subtítulo: “A vida por olhos angelicais”.

É através do corpo humano que os meus anjos se disfarçam. Fora feito há muito tempo e serve na medida para eles. É sempre o mesmo para todos e nunca sai de moda. Depende apenas do tamanho, da cor e da preferência de cada anjo. Se Sófocles visse os meus anjos… afirmaria outra vez: “Inúmeras são as maravilhas do mundo, mas nenhuma, nenhuma é mais incrível que o corpo do homem.

Creio que essa coisa de ter seus próprios anjos é um legado familiar. Meu pai também confessa ter os seus anjos. Quando éramos crianças ele dizia pra um e pra outro: “…vem cá meu anjo!” E assim, se tornava céu o encontro entre pai e filhos. Nós ainda não crescemos para ele, e nunca cresceremos. Que bom! O céu tem de continuar.

Na companhia desses anjos eu sinto paz.

Conheci um anjo. Foi por foto. Uma única fotografia. Ele já tinha partido quando vi suas feições. Sentiram muita falta dele nos céus e ele teve de ir embora, voltar. O anjo ficou triste quando recebeu a notícia de seu regresso. Tinha vivido aqui pouco tempo: aproximadamente dezoito anos e logo deveria partir.

Este anjo era daqueles que faziam parte dos “meus anjos” e eu mesmo não sabia. E a exemplo dos meus anjos, este tinha se encantado com a terra e suas belezas: não queria mais voltar… quando um anjo se encanta com a terra, toda a terra fica encantada com ele. É sempre assim e com esse anjo não foi diferente.

Assim que chegou, tomou o disfarce de uma menina. Recém-nascida, aqueles que foram encarregados de cuidá-la lhe batizaram com o nome de Renata: do latim Renatus, nascida novamente, renascida. E foi exatamente isso que aconteceu ao anjo: in Renata ele veio a nascer de novo, agora, na terra e para a terra, e respondendo ao anseio angelical, a terra nasceu para ele também (perdoe-me a confusão de masculino e feminino – isto é coisa de anjo).

Renata, um lindo anjo que embelezou a vida na terra.

Lá no céu eram todos iguais. As suas belezas desconcertantes não causavam encantamento algum. Uma floresta formada apenas de quaresmeiras, por mais belo que seja, não pode ser comparado à beleza de uma solitária quaresmeira, reinante, tendo à sua volta as demais árvores da floresta, todas harmoniosamente verdes.

E Renata era uma quaresmeira entre nós.

As fotografias trazem além das imagens, histórias. E depois de ouvir um pouco sobre a história de Renata, principalmente os últimos dias da quaresmeira na floresta, fui levado a habitar no mais próximo das palavras de Emily Dickinson, que enxergou a Terra, em sua imensidão e mover “vagaroso”, como um ninho…

            “O que é de fato a Terra senão um ninho

de cuja beirada estamos todos caindo?”

Quando adolescente, em fins de outubro, fiquei a observar a construção de um ninho de coleiros (coleirinha, papa capim…) na Casuarina que havia no quintal. Cuidadosamente, tanto o macho como a fêmea, iam tecendo nos arriscados galhos da Casuarina a futura residência. Tudo ficou pronto. De maneira como aprenderam da silenciosa sabedoria da natureza. Os ovos surgiram depois, a fêmea se enclausurou para a vinda dos filhotes e após alguns dias, já em novembro, havia certa movimentação no ninho, resultado da aparição de três filhotes recém nascidos.

O ninho: um mundo.

Pude através da agitação do ninho, alcançar a agitação da existência, do indivíduo, da vida. Pude pelas tempestades arrasadoras de novembro, alcançar a dimensão do que seria “cair do ninho” pelas palavras de Emily Dickinson.

Os galhos da Casuarina foram sacudidos e do ninho bem firme aos galhos, os filhotes vieram ao chão… o desespero do casal de pássaros, após despedida das nuvens, possibilitaram-me encontrar os filhotes caídos do ninho. Ainda muito pequenos, recolhi-os um a um, coloquei-os numa caixa de sapatos, envolvi-os a um monte de retalhos grossos e sobre os “piu-pius” acendi um sol: o abajur.

Renata caiu do ninho. Na sua juventude, ela poderia dizer palavras como as de Quintana…

                “Eu estava dormindo e me acordaram

E me encontrei, assim, num mundo estranho e louco…

E quando eu começava a compreendê-lo

Um pouco,

Já eram horas de dormir de novo! ”

Quando somos despertados no ninho, quando nos despertamos para o ninho, pouco de nós o ninho obtém. Logo somos chamados para fora. E cair do ninho, lançar-se, alçar vôo… é sempre um adeus.

Um texto antigo da obra “Vestido ao Vento”, trazido à tona por causa de mais uma apresentação do filme “City of Angels”.

“O Brasil é uma

república federativa

cheia de árvores

e gente dizendo adeus”

Oswald de Andrade

Meu filho começou a descrever o aspecto físico do que ele considerava ser um anjo. Asas brancas – anjo de respeito precisa ter asas; cabelos louros, encaracolados; auréola de ouro – que persegue a sua cabeça aonde ele vai; e alegria, um sorriso que abarca o mundo e seus habitantes…

Eu também pensava como meu filho: tinha uma mentalidade européia, germânica, quase ariana, acerca dos anjos – e por se aproximarem por demais dos anjos de Hitler, temia eu, os meus próprios anjos. Sei que meu filho foi influenciado, assim como eu, por revistas infantis que traçam o aspecto angelical ainda de maneira medieval. Sei ainda, que um dia os anjos serão mais pessoais para ele.

Anjos são como nuvens. Ao ver uma mesma nuvem, cada um possui a sua própria imagem dela.

A imagem que tenho de anjos é minha, por isso os anjos se tornam: meus.

Então digo: os meus anjos…

Os meus anjos possuem asas, mas elas são invisíveis. Eles voam, mas preferem caminhar. Não há neles um padrão – todos são belos à maneira deles. Uns contam histórias, outros escrevem poesias. Existem aqueles que lidam com as cores e as prende em telas. Outros dão cor à vida através de músicas, e ainda há aqueles que vivem numa divina contemplação de tudo que fora criado pelo Criador (ato que o ser humano se divorciou). Importantes são estes anjos contempladores. Diante de tantas belezas que há no mundo, nenhuma delas pode ser ignorada. São anjos guardiões da beleza. E se protege a beleza contemplando-a.

Anjos … e ainda há outros.

Os meus anjos não são de outro mundo. Caso fossem, seriam extra-terrestres. Os meus anjos são intra-terrestres. Eles são de casa. Abrem a porta da geladeira e se servem sozinhos. Possuem cópia das chaves da casa. Não perdem um capítulo da novela em nossa companhia. Eles são da família! Ganharam status de seres humanos, o que é diferente de dizer que perderam status de divindade. Eles com isso, estão muito próximos do menino Jesus de Alberto Caeiro, em “O Guardador de Rebanhos”, quando ao falar dele, nos diz…

Hoje vive na minha aldeia comigo.

É uma criança bonita de riso e natural.

Limpa o nariz ao braço direito,

Chapinha nas poças de água,

Colhe flores e gosta delas e esquece-as,

Atira pedra aos burros,

Rouba as frutas dos pomares

E foge a chorar e a gritar dos cães.

(…)”

Os meus anjos intra-terrestres poderiam brincar até a noitinha com o menino Jesus de Alberto Caeiro. (continua na parte II)

- Dizer o que teria acontecido? Não, a ninguém jamais se diz isso.(…)

Mas todos podem descubrir o que vai acontecer – (…)

 Se voltar agora e acordar os outros(…)

C.S. Lewis

Crônicas de Nárnia – Príncipe Caspian

Há um ano, meus textos no blog eram uma mistura de dor, tristeza, pesares, traumas e insistentes projeções para o que viria pós tragédia. Hoje, uma só constatação: Nenhuma autoridade governamental permitiu que rompêssemos com a tragédia do dia 11/01/2011 e suas inapagáveis marcas.

As obras tão insistentemente ditas, cobradas, protestadas, não servem tão somente para a dignificação do povo, mas para romper definitivamente com um passado angustiante e assombrador. As águas em Nova Friburgo, terminantemente, não são águas passadas. Elas estão estagnadas e putrefatas, sob o nome de política ingenuamente deficiente ou especializada em adquirir vantagens ante o trágico sempre vivido pela sociedade comum. Portanto, ao se falar, ver e ouvir, as pessoas diretamente afetadas – e que continuam sofrendo nas suas múltiplas necessidades – constata-se um semblante triste, cansado, desiludido, sem esperança, tal como milhares e milhares de semblantes que vimos, “ontem”, quando o calendário marcava 11/01/2011. Na verdade, a expressão, “parece que foi ontem”, nunca coube tanto, como na realidade que vivemos em Nova Friburgo. Aliás, vergonhoso lembrar o cansado trocadilho marketeiro usado por tantos ao se cunhar que a cidade voltaria a ser nova. Como? – eu pergunto. Quando uma cidade pode ser totalmente renovada, enquanto o sórdido, poluente e babilônico modelo político continuar sendo permitido por nós? O trabalho feito pelo órgão de limpeza e urbanização da cidade a cada chuva que cai na conhecida Praça do Suspiro é cópia fiel da administração pública vigente. A lama suja toda a rua, então, munidos de pipas d’água e mangueiras lavam toda a sujeira. Que voltará a ser limpa na próxima e chuva e assim por diante. Enquanto não formos sérios em nossos votos – chega de urna eletrônica, não tenho pressa em saber quem governará; destemidos em nossos protestos – sem violência, Luther King Forever; e leais ao senso comum – o que desejo necessita repercutir em ganho para todos, continuaremos lavando a lama que escorre dos palácios.

Eu queria homenagear pessoas que partiram, como o “Carne Seca”, guardador de carros, vítima, antes mesmo do dia de “ontem”, vítima de uma sociedade exclusivista e não causadora de sonhos realizados para todos. Eu queria homenagear aos heróis que lançaram uma corda, que acordaram uma família, que se lançaram nas águas, que reviraram lama, que fizeram… e nem deixaram seus nomes. Mas não.

Vou homenagear os políticos que receberam as verbas destinadas às vitimas da catástrofe natural e tão logo foram acusados de desvios das mesmas; vou homenagear aqueles que se colocaram numa platéia restrita, a que torce por um município afundado ainda mais na lama, para que sejam os “redentores” nas próximas eleições; vou homenagear os que gentilmente construíram e nos deixaram de herança essa fingida, insensível e Jesabelínica política; homenagear os irmãos de outros escalões, que diante da desdita desceram como abutres por meio de aeronaves para repartirem – será que apenas as tarefas? Quero homenagear ainda os diversos empresários que agraciados pelos empréstimos – mesmo com suas empresas mais secas que telhado no deserto nordestino, impediram outros que chafurdados na lama sucumbiram, a todos e outros que são omitidos em minha singela homenagem, a quem peço perdão por tamanha injustiça de minha desmemoriada atenção, deixo-vos um texto: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.”

“… e há tempo para todo propósito debaixo do céu:(…)”

Eclesiastes 3.1

As datas marcam épocas, momentos, estações, acontecimentos… Servem para boas lembranças e para  lembranças do que se deseja esquecer. Quando se perde alguém, um mero dia fica marcado para sempre. Quando se ganha alguém (nascimento) um dia comum fica registrado, e sempre é lembrado com festas. As datas marcam e por isso podem ser perigosas para determinadas pessoas. Podem as datas se transformarem em obstáculos, em ancoradouros e estagnarem vidas . Assim, não haverá expectativas de novos tempos .

O surgimento de Novos Tempos, distancia as pessoas de datas que ficam para trás. Abrem portas para uma nova aurora, um dia novo que raia para conquistas. Quando o sol desponta, a mensagem que chega é a de novas possibilidades, de tentativas que são renovadas e da desistência que, pensada durante a noite, é sepultada logo nos primeiros momentos do dia.

E quando o ser humano insiste em permanecer? Quando a força de fatos passados se torna árbitro na vida de alguém? Ou ainda, quando o tempo abre portas para mudanças e o ser humano insiste em não ultrapassá-la?

O tempo que é regido por Deus, trazido a nós como possibilidades de continuar, é, acima de tudo, um imperativo do Sublime no intuito do ser humano desgarrar-se de passados escusos, obscuros e regados de tristezas e decepções, para um tempo de novas realizações. O medo diante do Novo trazido por Deus é comum pelas marcas que tempos antigos deixaram, todavia, retém o ser humano de experimentar os propósitos de Deus que possuem todo o tempo do mundo para se concretizarem.

Deus não exige que o ser humano mude por si mesmo a visão que possui da vida para experimentar as suas bênçãos. Deus é aquele que deseja mudar o ser humano, começando pelos Novos Tempos que Ele proporciona. Deus não exige que o ser humano esqueça de tudo o que se passou. Deus quer ajudar o ser humano a viver abundantemente, mesmo com memórias do passado, Deus quer ajudá-lo a viver a despeito do passado, um futuro de grandes acúmulos de enumerados bens, bem no plural. Deus não exige olhos apurados quanto ao futuro. Deus quer firmar os passos do ser humano para guiá-lo em passadas firmes e corajosas por seus divinos planos .

O Novo Ano, é abertura das oportunidades divinas. As datas dos anos passados, com fatos que marcaram cada um deles,  já não existem mais. Apenas na memória de quem deseja lembrá-las. O futuro é o que aguarda o ser humano, o futuro é o que o ser humano precisa aguardar. Um futuro onde Deus abre suas portas e seus braços para conduzir o ser humano à libertação de si, de seus pensamentos, concedendo-lhe as melhores e mais seguras expectativas.

Que Deus nos abençoe no Novo Ano que se abre.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.